Os Estados Unidos Commodity Futures Trading Commission (CFTC) emitiram oficialmente uma carta de isenção de “não ação” à bolsa de criptomoedas Bitnomial, permitindo-lhe lançar “contratos de eventos” e mercados de previsão baseados em ativos digitais, indicadores econômicos e outros ativos subjacentes.
Esta decisão não só remove obstáculos regulatórios essenciais para a Bitnomial, como também sinaliza uma postura mais aberta por parte do regulador de derivativos dos EUA em relação a produtos financeiros inovadores nativos de criptomoedas. Com o ciclo eleitoral de 2024 impulsionando o crescimento dos mercados de previsão, plataformas on-chain como Polymarket e Kalshi estão recebendo uma atenção sem precedentes da cultura mainstream e do capital. Essa abertura regulatória pode abrir um novo capítulo na fusão entre finanças tradicionais e finanças descentralizadas no campo de derivativos complexos.
Luz verde regulatória: Como a CFTC está pavimentando o caminho para a Bitnomial
No início de 2025, a regulamentação do mercado de derivativos dos EUA ganhou um marco importante. A divisão de Supervisão de Mercado (Division of Market Oversight) e a divisão de Liquidação e Risco (Division of Clearing and Risk) da CFTC enviaram uma carta de isenção de “não ação” à Bitnomial Exchange, LLC e sua subsidiária de liquidação, Bitnomial Clearinghouse, LLC. Essa carta representa um sinal claro do regulador: enquanto operarem dentro de um quadro específico, negócios que possam tocar áreas cinzentas da regulamentação não enfrentarão recomendações de acusação por parte do enforcement. Para a Bitnomial, esse “sinal verde” significa que ela pode legalmente lançar e operar uma nova categoria de derivativos — os contratos de eventos.
O que são contratos de eventos? Em resumo, são instrumentos financeiros que permitem aos traders apostar no resultado de eventos específicos (por exemplo, “Bitcoin poderá ultrapassar US$ 100.000 até o final do mês?” ou “Os dados de emprego não agrícola de determinado mês ficarão acima das expectativas?”). A Bitnomial deixou claro em sua solicitação à CFTC que deseja listar “contratos binários e de troca com limites, cujo objeto envolva ativos digitais, indicadores econômicos e outros resultados financeiros”, enfatizando que todos os contratos serão “totalmente garantidos”. A aprovação veio com condições, incluindo a exigência de que a Bitnomial divulgue dados de vendas e cumpra requisitos específicos de registro e reporte. Essas ações refletem um equilíbrio cuidadoso entre incentivar a inovação, manter a integridade do mercado e proteger os consumidores.
Essa decisão não é um evento isolado. No mês anterior, durante o mandato do então presidente interino da CFTC, Caroline Pham, o órgão já havia sinalizado positivamente para várias empresas interessadas em entrar no campo de mercados de previsão. Por exemplo, em dezembro de 2024, a CFTC aprovou a Gemini Titan para oferecer contratos binários clássicos de eventos, deixando espaço para expansão futura em futuros de criptomoedas, opções e contratos perpétuos. Simultaneamente, plataformas como Polymarket US e MIAX Derivatives Exchange LLC receberam cartas similares de não ação. A própria Bitnomial, em dezembro de 2024, tornou-se a primeira bolsa a obter aprovação regulatória para listar um produto de criptomoeda à vista (como um ETF de Bitcoin à vista derivado). Essa sequência de ações traça uma trajetória regulatória: a CFTC está permitindo de forma controlada que entidades reguladas explorem o emergente campo de mercados de previsão.
Análise das características do protocolo: segurança e transparência em duplo aperto
Obter uma carta de “não ação” não é uma licença definitiva, mas sim uma autorização de operação segura, com cláusulas rigorosas. As condições impostas pela CFTC à Bitnomial concentram-se na segregação de riscos e na transparência de informações, visando construir uma estrutura robusta para o mercado de previsão. Essas cláusulas não apenas limitam a atuação da Bitnomial, mas também estabelecem um padrão regulatório para possíveis participantes futuros do setor.
Condições-chave do protocolo da Bitnomial
Garantia total (1:1 de respaldo): Todas as posições em aberto devem ser totalmente cobertas por garantias de valor equivalente, proibindo o uso de alavancagem. Essa exigência elimina completamente o risco de contraparte, garantindo que qualquer resultado possa ser pago integralmente.
Transparência de dados: Deve-se fornecer aos usuários informações claras e detalhadas do mercado, incluindo timestamps precisos e dados de vendas.
Relatórios regulatórios: Quando solicitado pela CFTC, é obrigatório fornecer detalhes relevantes.
Retenção de registros: Deve-se cumprir rigorosos requisitos de arquivamento para fins de auditoria e supervisão.
Dentre esses, a “garantia total” é a barreira mais fundamental. Fontes próximas ao assunto revelam que o órgão regulador deixou claro que a Bitnomial não pode usar alavancagem e deve manter respaldo de ativos 1:1. Esse mecanismo é crucial para plataformas de previsão que podem trocar uma grande quantidade de contratos em um único dia, em um ritmo acelerado. Ele garante que a plataforma mantenha liquidez suficiente mesmo em momentos de alta volatilidade, evitando riscos de inadimplência em cascata por garantias insuficientes, e assim preservando a estabilidade da empresa e do mercado como um todo. Em contraste com plataformas descentralizadas de previsão que dependem de algoritmos e governança comunitária para gerenciar riscos, essa abordagem representa uma visão regulatória de “prioridade à segurança” na inovação financeira.
Além disso, a transparência de dados e as obrigações de reporte funcionam como um duplo aperto. A Bitnomial deve disponibilizar informações detalhadas, como timestamps e dados de vendas, em seu site. Quando solicitado por órgãos federais, ela também deve fornecer detalhes relevantes. Essas exigências visam aumentar a transparência do mercado, prevenir manipulação e uso de informações privilegiadas, além de permitir uma fiscalização eficaz. Em um contexto onde mercados de previsão frequentemente enfrentam controvérsias por uso de informações internas (como o recente caso de uma conta que lucrou US$ 40 mil apostando na saída do presidente venezuelano Maduro), esses requisitos de transparência tornam-se ainda mais essenciais. Eles equilibram a inovação de mercado com a necessidade de controle.
O crescimento da onda na indústria: por que os mercados de previsão estão se tornando o novo favorito?
A aprovação regulatória da Bitnomial é um marco não só para ela, mas também um sinal forte de que o setor de mercados de previsão está entrando na visão mainstream. Nos últimos anos, especialmente com o ciclo eleitoral de 2024, esses mercados tiveram um crescimento explosivo. Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem que usuários apostem com criptomoedas ou moeda fiduciária em resultados de eventos específicos (como vencedores de primárias estaduais ou o resultado da eleição presidencial). Essa combinação de especulação financeira e participação política atraiu uma grande base de usuários.
Especialistas apontam que o interesse do público americano por mercados de previsão aumentou significativamente durante as eleições de 2024. Defensores acreditam que a inteligência coletiva, baseada em apostas de “dinheiro de verdade”, muitas vezes consegue refletir com maior precisão as probabilidades reais dos eventos do que as tradicionais pesquisas de opinião. Essa atração até invadiu a cultura popular. Em setembro de 2025, o famoso programa de animação “South Park” satirizou o tema, incluindo uma cena que mostra plataformas como Kalshi e Polymarket, o que trouxe uma exposição de fenômeno para esses principais mercados de previsão, elevando sua notoriedade entre o público geral.
A resposta do capital foi direta e poderosa. Segundo relatos, um mês após a exibição de um episódio de “South Park” que satirizava esses mercados, a Intercontinental Exchange (ICE), uma gigante financeira de Nova York, investiu até US$ 2 bilhões na Polymarket, elevando sua avaliação para US$ 9 bilhões. Por outro lado, uma grande exchange centralizada (CEX) anunciou, em dezembro de 2025, planos de adquirir uma startup de tecnologia financeira que desenvolve uma plataforma de previsão on-chain de próxima geração, a The Clearing Company, como parte de sua estratégia de exploração nesse setor. A transação deve ser concluída até janeiro de 2026, antes das eleições intermediárias dos EUA. Analistas preveem que, com a chegada do ciclo eleitoral, as operações nesses mercados de previsão irão crescer significativamente. Essa onda, impulsionada por cultura, capital e calendário eleitoral, está levando os mercados de previsão do experimental marginal ao centro da inovação financeira.
Impactos futuros e desafios: a imaginação de uma regulamentação para derivativos de criptomoedas
A autorização da CFTC para a Bitnomial tem um impacto que vai além de uma única empresa ou produto. Ela indica que o sistema regulatório financeiro dos EUA pode estar abrindo uma porta condicional para uma nova geração de opções financeiras baseadas em blockchain e criptomoedas. Sob a presidência de Michael Selig, nomeado em dezembro de 2024 e atualmente único membro do conselho da CFTC, essa tendência ganha ainda mais relevância. Selig já falou publicamente sobre a necessidade de regras mais claras para criptomoedas, buscando equilibrar proteção ao consumidor e inovação por parte dos desenvolvedores de software. O caso da Bitnomial pode ser uma das primeiras aplicações dessa estratégia de equilíbrio.
Esse avanço abre espaço para uma nova visão de conformidade no mercado de derivativos de criptomoedas. Tradicionalmente, derivativos complexos de criptomoedas (como opções e produtos estruturados) são negociados fora do sistema regulatório ou em plataformas offshore. O modelo da Bitnomial sugere uma possibilidade: usando estruturas como “garantia total” e “baseados em eventos”, é possível criar contratos padronizados que incorporem variáveis nativas, como a volatilidade de preços de ativos digitais, resultados de atualizações de rede ou até o hype de memes, de forma a atender aos requisitos regulatórios tradicionais. Isso pode atrair fundos institucionais que buscam uma entrada regulada, além de potencialmente canalizar mais liquidez do mercado financeiro tradicional para o ecossistema cripto.
Por outro lado, há desafios e oportunidades. O principal deles é como lidar com acusações de uso de informações privilegiadas. Mercados de previsão, especialmente aqueles ligados a eventos políticos ou corporativos, sempre caminham na linha tênue entre uso de informações não públicas e ética. As exigências de transparência e reporte da CFTC funcionam como uma barreira, mas não garantem a eliminação total desses riscos. Além disso, a natureza de “jogo de azar” desses mercados ainda é sensível sob a legislação de vários estados americanos, e a licença federal não elimina completamente o risco legal estadual. Por fim, a competição de plataformas descentralizadas, como Augur, que operam sem licença e com forte resistência à censura, também é uma ameaça. A trajetória regulatória da Bitnomial, que busca uma via de conformidade, versus a de plataformas totalmente descentralizadas, que priorizam autonomia, criará uma competição de longo prazo em termos de experiência do usuário, custos e modelos de confiança.
Contratos de eventos: princípios e aplicações
Para entender o significado da aprovação da Bitnomial, é fundamental esclarecer o que são “contratos de eventos”. Embora não sejam uma invenção nova, sua combinação com dados de blockchain e criptomoedas abre possibilidades inéditas.
Um contrato de evento é um derivativo cujo pagamento depende do resultado de um evento futuro específico (resultado binário) ou de uma faixa predefinida (resultado com limites). Por exemplo, um contrato binário típico poderia ser: “Até 30 de junho de 2025, às 23h59 UTC, o preço do Ethereum estará acima de US$ 5.000?” Se a resposta for “sim”, o comprador recebe um pagamento fixo (por exemplo, US$ 1); se “não”, o vendedor recebe. O preço de mercado (por exemplo, US$ 0,65) reflete a probabilidade de o evento ocorrer (65%).
Na área de criptomoedas, as aplicações de contratos de eventos são altamente imaginativas:
Governança e atualizações de protocolos: apostar se uma próxima hard fork do Ethereum ocorrerá até julho, ou se uma proposta de DAO será aprovada com mais de 60% de votos favoráveis. Isso fornece uma ferramenta poderosa de previsão de mercado para desenvolvedores e comunidades.
Indicadores on-chain: contratos vinculados a “o volume diário do Uniswap V3 no próximo mês ultrapassará US$ 10 bilhões?” ou “o preço mínimo de um NFT específico cairá pela metade até o final do trimestre?”.
Macro e cripto combinados: prever se o Federal Reserve irá aumentar, diminuir ou manter a taxa de juros na próxima reunião, e combinar essa previsão com a resposta do mercado de criptomoedas, como “Bitcoin subirá ou cairá na hora da divulgação da decisão”, formando estratégias de hedge ou especulação complexas.
A introdução desses contratos em um ambiente de liquidação regulado significa que essas funções de descoberta de preço ocorrerão em um ambiente com força legal e gestão de risco rigorosa, o que é fundamental para atrair grandes traders e instituições.
A trajetória regulatória dos mercados de previsão
O caminho para a conformidade dos mercados de previsão foi tortuoso, cheio de tentativas, confrontos e negociações. A aprovação da Bitnomial é um marco recente nessa longa jornada.
Nos anos 2000, mercados acadêmicos como Iowa Electronic Markets operaram sob o rótulo de “ferramentas de pesquisa”, com restrições a lucros e participação pública em grande escala. Com o surgimento do Bitcoin e da tecnologia blockchain na década de 2010, plataformas descentralizadas como Augur desafiaram o status quo, operando sob a máxima de “código é lei”, dificultando a regulação direta.
O ponto de inflexão veio na década de 2020. Plataformas como Polymarket, baseadas em criptomoedas, cresceram rapidamente, mas em 2022 foram penalizadas pela CFTC por operar como opções binárias ilegais e não registradas, levando ao fechamento de parte de suas operações. Isso forçou o setor a buscar caminhos de conformidade. Polymarket, por exemplo, começou a separar sua operação nos EUA e a buscar aprovação regulatória. Kalshi, desde o início, adotou uma postura de conformidade, registrando-se como bolsa de contratos de eventos perante a CFTC.
A trajetória da Bitnomial foi diferente. Como uma bolsa regulada pela CFTC (DCM) e uma organização de liquidação de derivativos (DCO), ela expandiu suas operações por meio de uma carta de “não ação”, uma estratégia de inovação incremental dentro de uma licença existente. Essa abordagem pode servir de modelo para outras instituições financeiras tradicionais ou cripto que já possuem licença.
A evolução de uma postura de fiscalização rigorosa para uma abordagem condicional reflete a pressão por inovação tecnológica, o interesse de capital e a experiência regulatória na busca por um equilíbrio entre controle e estímulo à inovação. Ainda há um longo caminho, mas o rumo está claro: os mercados de previsão estão sendo integrados ao sistema financeiro regulado, com a tecnologia blockchain e criptomoedas como motores dessa transformação.
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CFTC dá luz verde à Bitnomial: mercado de previsões recebe aprovação regulatória, abrindo caminho para derivados de criptomoedas
Os Estados Unidos Commodity Futures Trading Commission (CFTC) emitiram oficialmente uma carta de isenção de “não ação” à bolsa de criptomoedas Bitnomial, permitindo-lhe lançar “contratos de eventos” e mercados de previsão baseados em ativos digitais, indicadores econômicos e outros ativos subjacentes.
Esta decisão não só remove obstáculos regulatórios essenciais para a Bitnomial, como também sinaliza uma postura mais aberta por parte do regulador de derivativos dos EUA em relação a produtos financeiros inovadores nativos de criptomoedas. Com o ciclo eleitoral de 2024 impulsionando o crescimento dos mercados de previsão, plataformas on-chain como Polymarket e Kalshi estão recebendo uma atenção sem precedentes da cultura mainstream e do capital. Essa abertura regulatória pode abrir um novo capítulo na fusão entre finanças tradicionais e finanças descentralizadas no campo de derivativos complexos.
Luz verde regulatória: Como a CFTC está pavimentando o caminho para a Bitnomial
No início de 2025, a regulamentação do mercado de derivativos dos EUA ganhou um marco importante. A divisão de Supervisão de Mercado (Division of Market Oversight) e a divisão de Liquidação e Risco (Division of Clearing and Risk) da CFTC enviaram uma carta de isenção de “não ação” à Bitnomial Exchange, LLC e sua subsidiária de liquidação, Bitnomial Clearinghouse, LLC. Essa carta representa um sinal claro do regulador: enquanto operarem dentro de um quadro específico, negócios que possam tocar áreas cinzentas da regulamentação não enfrentarão recomendações de acusação por parte do enforcement. Para a Bitnomial, esse “sinal verde” significa que ela pode legalmente lançar e operar uma nova categoria de derivativos — os contratos de eventos.
O que são contratos de eventos? Em resumo, são instrumentos financeiros que permitem aos traders apostar no resultado de eventos específicos (por exemplo, “Bitcoin poderá ultrapassar US$ 100.000 até o final do mês?” ou “Os dados de emprego não agrícola de determinado mês ficarão acima das expectativas?”). A Bitnomial deixou claro em sua solicitação à CFTC que deseja listar “contratos binários e de troca com limites, cujo objeto envolva ativos digitais, indicadores econômicos e outros resultados financeiros”, enfatizando que todos os contratos serão “totalmente garantidos”. A aprovação veio com condições, incluindo a exigência de que a Bitnomial divulgue dados de vendas e cumpra requisitos específicos de registro e reporte. Essas ações refletem um equilíbrio cuidadoso entre incentivar a inovação, manter a integridade do mercado e proteger os consumidores.
Essa decisão não é um evento isolado. No mês anterior, durante o mandato do então presidente interino da CFTC, Caroline Pham, o órgão já havia sinalizado positivamente para várias empresas interessadas em entrar no campo de mercados de previsão. Por exemplo, em dezembro de 2024, a CFTC aprovou a Gemini Titan para oferecer contratos binários clássicos de eventos, deixando espaço para expansão futura em futuros de criptomoedas, opções e contratos perpétuos. Simultaneamente, plataformas como Polymarket US e MIAX Derivatives Exchange LLC receberam cartas similares de não ação. A própria Bitnomial, em dezembro de 2024, tornou-se a primeira bolsa a obter aprovação regulatória para listar um produto de criptomoeda à vista (como um ETF de Bitcoin à vista derivado). Essa sequência de ações traça uma trajetória regulatória: a CFTC está permitindo de forma controlada que entidades reguladas explorem o emergente campo de mercados de previsão.
Análise das características do protocolo: segurança e transparência em duplo aperto
Obter uma carta de “não ação” não é uma licença definitiva, mas sim uma autorização de operação segura, com cláusulas rigorosas. As condições impostas pela CFTC à Bitnomial concentram-se na segregação de riscos e na transparência de informações, visando construir uma estrutura robusta para o mercado de previsão. Essas cláusulas não apenas limitam a atuação da Bitnomial, mas também estabelecem um padrão regulatório para possíveis participantes futuros do setor.
Condições-chave do protocolo da Bitnomial
Dentre esses, a “garantia total” é a barreira mais fundamental. Fontes próximas ao assunto revelam que o órgão regulador deixou claro que a Bitnomial não pode usar alavancagem e deve manter respaldo de ativos 1:1. Esse mecanismo é crucial para plataformas de previsão que podem trocar uma grande quantidade de contratos em um único dia, em um ritmo acelerado. Ele garante que a plataforma mantenha liquidez suficiente mesmo em momentos de alta volatilidade, evitando riscos de inadimplência em cascata por garantias insuficientes, e assim preservando a estabilidade da empresa e do mercado como um todo. Em contraste com plataformas descentralizadas de previsão que dependem de algoritmos e governança comunitária para gerenciar riscos, essa abordagem representa uma visão regulatória de “prioridade à segurança” na inovação financeira.
Além disso, a transparência de dados e as obrigações de reporte funcionam como um duplo aperto. A Bitnomial deve disponibilizar informações detalhadas, como timestamps e dados de vendas, em seu site. Quando solicitado por órgãos federais, ela também deve fornecer detalhes relevantes. Essas exigências visam aumentar a transparência do mercado, prevenir manipulação e uso de informações privilegiadas, além de permitir uma fiscalização eficaz. Em um contexto onde mercados de previsão frequentemente enfrentam controvérsias por uso de informações internas (como o recente caso de uma conta que lucrou US$ 40 mil apostando na saída do presidente venezuelano Maduro), esses requisitos de transparência tornam-se ainda mais essenciais. Eles equilibram a inovação de mercado com a necessidade de controle.
O crescimento da onda na indústria: por que os mercados de previsão estão se tornando o novo favorito?
A aprovação regulatória da Bitnomial é um marco não só para ela, mas também um sinal forte de que o setor de mercados de previsão está entrando na visão mainstream. Nos últimos anos, especialmente com o ciclo eleitoral de 2024, esses mercados tiveram um crescimento explosivo. Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem que usuários apostem com criptomoedas ou moeda fiduciária em resultados de eventos específicos (como vencedores de primárias estaduais ou o resultado da eleição presidencial). Essa combinação de especulação financeira e participação política atraiu uma grande base de usuários.
Especialistas apontam que o interesse do público americano por mercados de previsão aumentou significativamente durante as eleições de 2024. Defensores acreditam que a inteligência coletiva, baseada em apostas de “dinheiro de verdade”, muitas vezes consegue refletir com maior precisão as probabilidades reais dos eventos do que as tradicionais pesquisas de opinião. Essa atração até invadiu a cultura popular. Em setembro de 2025, o famoso programa de animação “South Park” satirizou o tema, incluindo uma cena que mostra plataformas como Kalshi e Polymarket, o que trouxe uma exposição de fenômeno para esses principais mercados de previsão, elevando sua notoriedade entre o público geral.
A resposta do capital foi direta e poderosa. Segundo relatos, um mês após a exibição de um episódio de “South Park” que satirizava esses mercados, a Intercontinental Exchange (ICE), uma gigante financeira de Nova York, investiu até US$ 2 bilhões na Polymarket, elevando sua avaliação para US$ 9 bilhões. Por outro lado, uma grande exchange centralizada (CEX) anunciou, em dezembro de 2025, planos de adquirir uma startup de tecnologia financeira que desenvolve uma plataforma de previsão on-chain de próxima geração, a The Clearing Company, como parte de sua estratégia de exploração nesse setor. A transação deve ser concluída até janeiro de 2026, antes das eleições intermediárias dos EUA. Analistas preveem que, com a chegada do ciclo eleitoral, as operações nesses mercados de previsão irão crescer significativamente. Essa onda, impulsionada por cultura, capital e calendário eleitoral, está levando os mercados de previsão do experimental marginal ao centro da inovação financeira.
Impactos futuros e desafios: a imaginação de uma regulamentação para derivativos de criptomoedas
A autorização da CFTC para a Bitnomial tem um impacto que vai além de uma única empresa ou produto. Ela indica que o sistema regulatório financeiro dos EUA pode estar abrindo uma porta condicional para uma nova geração de opções financeiras baseadas em blockchain e criptomoedas. Sob a presidência de Michael Selig, nomeado em dezembro de 2024 e atualmente único membro do conselho da CFTC, essa tendência ganha ainda mais relevância. Selig já falou publicamente sobre a necessidade de regras mais claras para criptomoedas, buscando equilibrar proteção ao consumidor e inovação por parte dos desenvolvedores de software. O caso da Bitnomial pode ser uma das primeiras aplicações dessa estratégia de equilíbrio.
Esse avanço abre espaço para uma nova visão de conformidade no mercado de derivativos de criptomoedas. Tradicionalmente, derivativos complexos de criptomoedas (como opções e produtos estruturados) são negociados fora do sistema regulatório ou em plataformas offshore. O modelo da Bitnomial sugere uma possibilidade: usando estruturas como “garantia total” e “baseados em eventos”, é possível criar contratos padronizados que incorporem variáveis nativas, como a volatilidade de preços de ativos digitais, resultados de atualizações de rede ou até o hype de memes, de forma a atender aos requisitos regulatórios tradicionais. Isso pode atrair fundos institucionais que buscam uma entrada regulada, além de potencialmente canalizar mais liquidez do mercado financeiro tradicional para o ecossistema cripto.
Por outro lado, há desafios e oportunidades. O principal deles é como lidar com acusações de uso de informações privilegiadas. Mercados de previsão, especialmente aqueles ligados a eventos políticos ou corporativos, sempre caminham na linha tênue entre uso de informações não públicas e ética. As exigências de transparência e reporte da CFTC funcionam como uma barreira, mas não garantem a eliminação total desses riscos. Além disso, a natureza de “jogo de azar” desses mercados ainda é sensível sob a legislação de vários estados americanos, e a licença federal não elimina completamente o risco legal estadual. Por fim, a competição de plataformas descentralizadas, como Augur, que operam sem licença e com forte resistência à censura, também é uma ameaça. A trajetória regulatória da Bitnomial, que busca uma via de conformidade, versus a de plataformas totalmente descentralizadas, que priorizam autonomia, criará uma competição de longo prazo em termos de experiência do usuário, custos e modelos de confiança.
Contratos de eventos: princípios e aplicações
Para entender o significado da aprovação da Bitnomial, é fundamental esclarecer o que são “contratos de eventos”. Embora não sejam uma invenção nova, sua combinação com dados de blockchain e criptomoedas abre possibilidades inéditas.
Um contrato de evento é um derivativo cujo pagamento depende do resultado de um evento futuro específico (resultado binário) ou de uma faixa predefinida (resultado com limites). Por exemplo, um contrato binário típico poderia ser: “Até 30 de junho de 2025, às 23h59 UTC, o preço do Ethereum estará acima de US$ 5.000?” Se a resposta for “sim”, o comprador recebe um pagamento fixo (por exemplo, US$ 1); se “não”, o vendedor recebe. O preço de mercado (por exemplo, US$ 0,65) reflete a probabilidade de o evento ocorrer (65%).
Na área de criptomoedas, as aplicações de contratos de eventos são altamente imaginativas:
A introdução desses contratos em um ambiente de liquidação regulado significa que essas funções de descoberta de preço ocorrerão em um ambiente com força legal e gestão de risco rigorosa, o que é fundamental para atrair grandes traders e instituições.
A trajetória regulatória dos mercados de previsão
O caminho para a conformidade dos mercados de previsão foi tortuoso, cheio de tentativas, confrontos e negociações. A aprovação da Bitnomial é um marco recente nessa longa jornada.
Nos anos 2000, mercados acadêmicos como Iowa Electronic Markets operaram sob o rótulo de “ferramentas de pesquisa”, com restrições a lucros e participação pública em grande escala. Com o surgimento do Bitcoin e da tecnologia blockchain na década de 2010, plataformas descentralizadas como Augur desafiaram o status quo, operando sob a máxima de “código é lei”, dificultando a regulação direta.
O ponto de inflexão veio na década de 2020. Plataformas como Polymarket, baseadas em criptomoedas, cresceram rapidamente, mas em 2022 foram penalizadas pela CFTC por operar como opções binárias ilegais e não registradas, levando ao fechamento de parte de suas operações. Isso forçou o setor a buscar caminhos de conformidade. Polymarket, por exemplo, começou a separar sua operação nos EUA e a buscar aprovação regulatória. Kalshi, desde o início, adotou uma postura de conformidade, registrando-se como bolsa de contratos de eventos perante a CFTC.
A trajetória da Bitnomial foi diferente. Como uma bolsa regulada pela CFTC (DCM) e uma organização de liquidação de derivativos (DCO), ela expandiu suas operações por meio de uma carta de “não ação”, uma estratégia de inovação incremental dentro de uma licença existente. Essa abordagem pode servir de modelo para outras instituições financeiras tradicionais ou cripto que já possuem licença.
A evolução de uma postura de fiscalização rigorosa para uma abordagem condicional reflete a pressão por inovação tecnológica, o interesse de capital e a experiência regulatória na busca por um equilíbrio entre controle e estímulo à inovação. Ainda há um longo caminho, mas o rumo está claro: os mercados de previsão estão sendo integrados ao sistema financeiro regulado, com a tecnologia blockchain e criptomoedas como motores dessa transformação.