Para grande parte da indústria cripto, o regresso de Donald Trump à Casa Branca tem sido visto como um impacto positivo. Uma série de ordens executivas favoráveis às criptomoedas, uma Comissão de Valores Mobiliários e de Câmbio reformulada com comissários mais pró-negócios, e a assinatura de legislação pioneira sobre stablecoins marcaram um forte contraste com a hostilidade regulatória anterior. Estas mudanças também encorajaram grandes bancos e empresas fintech a avançar de forma agressiva para os ativos digitais, acelerando uma convergência há muito esperada entre cripto e finanças tradicionais.
No entanto, para alguns construtores de longa data, este momento de validação traz uma troca desconfortável. Friederike Ernst, cofundadora da Gnosis, argumenta que as vitórias regulatórias e a adoção institucional correm o risco de obscurecer o que originalmente tornou a cripto uma força transformadora. Na sua opinião, a indústria não surgiu como uma atualização de back-end para as estruturas financeiras existentes, mas como uma forma fundamentalmente diferente de pensar sobre dinheiro, propriedade e coordenação.
De Hostilidade a Aceitação — e um Novo Tipo de Risco
Após anos de uma SEC que muitos percebiam como abertamente hostil, a crítica à postura atual da administração em relação às criptomoedas pode parecer quase tabu. Ernst reconhece que a aplicação da lei deve existir e que nenhuma indústria deve estar acima da lei. Ainda assim, ela acredita que a cripto foi excessivamente vilipendiada, particularmente por partes do establishment político dos EUA, e que o tom dessa fiscalização cruzou de uma supervisão para algo pessoal para muitos construtores.
Ironicamente, ela agora vê um risco diferente e mais sutil emergir. Quando a Gnosis foi fundada em 2015, a cripto ocupava uma posição marginal na sociedade. Os construtores questionavam abertamente a natureza do dinheiro, do poder e da confiança, desafiando suposições profundamente enraizadas sobre quem controla os sistemas financeiros e quem deles beneficia. Esses debates iniciais estavam inseparavelmente ligados a ideias de soberania, propriedade compartilhada e autonomia individual.
Na última década, essa postura mudou drasticamente. A cripto já não é mais a “estranha” de fora. Plataformas tradicionais estão adotando infraestrutura blockchain, bancos estão contratando engenheiros de stablecoin, e versões tokenizadas de ativos tradicionais estão se aproximando da aceitação regulatória. Até figuras seniores da administração Trump agora falam abertamente sobre a fusão entre cripto e bancos, formando uma indústria de ativos digitais única.
Adoção Institucional vs Valores Originais da Cripto
Para muitos no setor, essa convergência representa sucesso. Para Ernst, ela levanta questões difíceis. A presença crescente de empresas como Robinhood e Bank of America na cripto pode sinalizar legitimidade, mas ela questiona se essas instituições incorporam os princípios que atraíram os primeiros adotantes para a tecnologia em primeiro lugar.
A sua preocupação não é com progresso ou escala, mas com direção. A promessa original da cripto, ela argumenta, centrava-se na autonomia e propriedade do utilizador — sistemas desenhados para trabalhar com indivíduos, e não para extrair valor deles. À medida que os atores tradicionais do setor financeiro adotam ferramentas blockchain, Ernst teme que a cripto corra o risco de se tornar mais uma camada de infraestrutura que reforça hierarquias existentes, em vez de as remodelar.
Nesse sentido, o maior desafio da indústria pode já não ser a hostilidade regulatória, mas uma deriva filosófica. À medida que a cripto se torna mais segura, mais regulada e mais institucional, Ernst vê um perigo real de que os seus valores fundacionais — descentralização, autonomia e controlo partilhado — possam ser diluídos em troca de uma aceitação mainstream.