O negócio mais lucrativo da SpaceX é ela mesma. O que podemos aprender ao analisar a abertura de capital da SpaceX.

Autor: Alan Walker de Silicon Valley

Hoje às 7h30 da manhã do dia 21 de maio, a Zombie Café na California Avenue acaba de abrir. Alan Walker de Silicon Valley pediu um café com dose dupla de espresso, e colocou na mesa de madeira o prospecto que baixou na noite anterior. Do lado de fora, o amanhecer de Palo Alto ainda tingia de laranja — combinando bastante com a cor da capa do documento.

Em 20 de maio de 2026, a SpaceX oficialmente enviou o S-1 à SEC, com o código de ações "SPCX"; o roadshow começou em 4 de junho, o preço foi definido em 11 de junho, e a estreia na Nasdaq foi em 12 de junho, com uma avaliação alvo de 1,75 trilhão de dólares e captação de 75 bilhões — essa captação, sozinha, é 2,6 vezes maior que o recorde de Aramco em 2019, e é a maior IPO da história da humanidade. Os underwriters incluem todos os nomes que você conhece de Wall Street: Goldman Sachs, Morgan Stanley, BofA, Citi, JPM — os cinco principais gerentes de book conjunto liderando, seguidos por Barclays, Deutsche Bank, UBS, Wells Fargo, Allen & Company… ao todo, 23 bancos de investimento apoiando a emissão.

Essa foi a IPO mais aguardada dos últimos dez anos, sem dúvida. Mas, para ser honesto, após ler o prospecto, o que Alan mais quer conversar não é quão impressionante é o foguete — e sim um fato que você nunca pensou: o negócio mais lucrativo da SpaceX, na verdade, não é foguete.

A seguir, oito ângulos que revelam essa leitura do prospecto.

Não é uma IPO comum, é o "super time" do Musk

A SpaceX foi fundada em 2002, este ano completa 24 anos. Antes, todo mundo achava que ela continuaria sendo uma "empresa privada" — com dinheiro suficiente no mercado primário, e Musk odiando as complicações com a SEC. Mas desta vez, algo diferente. Três detalhes mostram que tudo foi cuidadosamente planejado como um Endgame:

Primeiro, o timing. Em 2 de fevereiro de 2026, a SpaceX adquiriu toda a xAI (no prospecto chamada de "xAI Merger"), incluindo a aquisição da X (antiga Twitter) que tinha comprado em março de 2025; em 4 de maio de 2026, fez uma divisão de ações de 5 por 1; e em 20 de maio, enviou o S-1. Menos de três meses e meio depois, uma sequência de movimentos completou a montagem do "Foguete + Satélites + AI + Mídias Sociais". Essa cadência não é por acaso, é uma agenda bem planejada.

Segundo, a estrutura. Ações Classe A com direito a um voto por ação, e Classe B com dez votos por ação — igual a Google, Meta, Snap, com dupla camada de controle acionário. Musk, por meio da Classe B, mantém o controle majoritário, e a empresa deixa claro que, após o IPO, operará como uma "controlled company", podendo isentar várias regras de governança corporativa (como não precisar de maioria de diretores independentes). Em resumo: dinheiro entra, mas a voz do controle não sai do bolso dele.

Terceiro, o time de underwriters. 23 bancos de investimento apoiando, sendo cinco de primeira linha. Alan, que faz VC há quase vinte anos, só viu esse nível de apoio duas vezes: Alibaba em 2014 e Aramco em 2019. Cada um desses bancos quer uma fatia, mostrando que Musk deliberadamente maximizou o "interesse de benefício" — fazendo com que cada grande banco tenha motivação para empurrar o preço para cima, alimentando os grandes clientes na sua carteira.

Note que há uma frase no documento que muitos ignoraram: a "xAI Merger" e a "X Merger" estão claramente listadas como "entre entidades sob controle comum" — uma transação de partes relacionadas sob controle conjunto. Musk move suas empresas controladas internamente, fazendo parecer que a SpaceX que vai à bolsa é um gigante completo de "AI + espaço". É uma operação legal, mas é preciso entender o jogo.

Composição de receitas: Starlink é o verdadeiro caixa

Vamos aos números. Aqui estão os dados do S-1, referentes a 2025, com as receitas e lucros de cada segmento:

[Quadro de receitas e lucros de 2025]

Starlink representou 61% da receita total de 2025, contribuindo quase todo o lucro operacional (44,23 bilhões de dólares positivos), enquanto os demais negócios da companhia estão no vermelho.

E o crescimento? Muito forte. O segmento de Conectividade, onde está o Starlink, cresceu 49,8% na receita em 2025, com lucro operacional crescendo 120,4%, EBITDA subindo 86,2% — isso não é crescimento de startup, é uma gigante com US$ 114 bilhões de receita, ainda acelerando.

E o negócio de foguetes? Em 2025, a receita total foi de apenas 4,086 bilhões de dólares, com prejuízo de 657 milhões — porque o desenvolvimento do Starship consome muito dinheiro (investimento de R$ 3 bilhões em P&D em 2025). Musk admite no documento: o negócio de foguetes existe para "habilitar nossos outros negócios" — lançar satélites do Starlink, transportar cargas para futuros satélites de computação de IA.

Portanto, o negócio que você pensou ser o "mais lucrativo" — é aquele que está na sua casa, no seu iate, no avião: o pequeno prato branco na sua casa, que conecta tudo.

Olhe também os dados de usuários: até 31 de março de 2026, há cerca de 9.600 satélites em órbita, 10,3 milhões de assinantes, cobrindo 164 países/regiões. O serviço de conexão direta satélite-para-telefone (Starlink Mobile) já está disponível em mais de 30 países, com 7,4 milhões de dispositivos ativos mensalmente. Esses satélites representam 75% do total de satélites móveis no mundo — ou seja, a cada quatro satélites móveis no céu, três são Musk.

Esse é o verdadeiro "conto de fadas" que Musk pode contar para Wall Street — não "foguete é demais", mas "agora sou o maior operador de satélites de internet do mundo, com receita recorrente, fluxo de caixa mensal, e margem de lucro em alta".

AI é uma máquina de queimar dinheiro: US$ 7,7 bilhões em capex no trimestre, queimando o fluxo de caixa do Starlink

Se o Starlink é a vaca leiteira, o negócio de AI é o monstro faminto ao lado. Olhando o capex (investimento em ativos fixos), temos os dados do primeiro trimestre de 2026:

Um trimestre, AI gastou US$ 7,7 bilhões — quase três vezes o que SpaceX + Conectividade gastaram juntos.

No ano, o capex de AI em 2025 foi de US$ 12,727 bilhões, com prejuízo de US$ 6,355 bilhões — um verdadeiro queimador de caixa.

Mas Musk não se preocupa. Por quê? Porque ele tem o Starlink como uma bomba de água, e também um "roda de energia" externo de "ordens de computação" que ninguém entendeu direito. No prospecto, há três contratos externos de peso, que representam o maior segredo desta IPO:

  1. Contrato de computação com Anthropic — esse merece uma atenção especial.

    Em maio de 2026, foi assinado um Acordo de Serviços de Nuvem, pelo qual a Anthropic paga US$ 1,25 bilhão por mês para usar os clusters COLOSSUS e COLOSSUS II, até maio de 2029. Total de cerca de US$ 45 bilhões em três anos, ou US$ 15 bilhões por ano. Para entender: a receita total do segmento de AI em 2025 foi de US$ 3,2 bilhões — ou seja, só esse contrato da Anthropic equivale a quase 5 vezes a receita de toda a divisão de AI em 2025. Quando a Anthropic atingir sua capacidade máxima em 2027, a receita de AI pode saltar de US$ 32 milhões para mais de US$ 200 bilhões por ano.

  2. A "natureza" dessa grana.

    A Anthropic é uma concorrente direta do OpenAI, com investidores como Google (que investiu mais de US$ 2 bilhões) e Amazon (US$ 4 bilhões). Mas a Anthropic assinou esses três anos de contrato de computação com Musk, usando a xAI — ou seja, o dinheiro do Google e Amazon, via Anthropic, está fluindo para Musk. E mais: a Anthropic planeja abrir IPO na segunda metade de 2026, com avaliação de US$ 350 bilhões. Uma parte do dinheiro arrecadado será paga à SpaceX. É um ciclo fechado de "capital inimigo" alimentando a própria base de Musk.

  3. Opções de compra da Cursor.

    Em abril de 2026, a SpaceX ofereceu à Cursor (uma das startups de IA mais quentes de São Francisco) acesso a GPU e assinou um acordo de compra com avaliação de US$ 60 bilhões. Se a SpaceX decidir não comprar, terá que pagar uma multa de US$ 1,5 bilhão + US$ 8,5 bilhões em serviços adiados — uma cláusula que praticamente trava qualquer outra saída da Cursor.

  4. A ambição de chips da Terafab.

    Em parceria com Tesla e Intel, a SpaceX quer produzir chips com capacidade de 1 terawatt por ano — ou seja, o dobro do consumo de energia de todos os data centers do mundo hoje. Uma tentativa de escapar da Nvidia e fazer sua própria fabricação de chips.

Esses três contratos (e outros que virão, com Meta, Mistral, Cohere, projetos de IA de países) transformam a divisão de AI da SpaceX na "AWS da IA". Segundo a McKinsey, o mercado global de infraestrutura de computação de IA deve chegar a US$ 70 trilhões nos próximos cinco anos. Se a SpaceX/xAI conquistar só 10%, isso já daria US$ 7 trilhões de receita — sem contar o valor adicional do "AI orbital compute" no espaço.

Por isso, a lógica de capital da SpaceX hoje é: o dinheiro do Starlink entra na conta, parte é gasta na missão de foguetes, o maior capex vai para acumular capacidade de computação, que é vendida a outras empresas de IA (inclusive concorrentes), e o caixa arrecadado é reinvestido. É um ciclo de "financiamento interno + retroalimentação externa" — enquanto outras IA precisam captar dinheiro no mercado, Musk faz financiamento interno, com Anthropic e outros apoiando.

Por que colocar a xAI dentro da SpaceX? Essa é a jogada mais inteligente de valuation

Muita gente pergunta: xAI e SpaceX não são empresas diferentes? Por que fundir antes do IPO? A resposta está em entender os objetivos do Musk: maximizar valuation, eficiência de uso de capital, controle firme e planejamento tributário. E essa fusão resolve tudo de uma vez.

Primeiro, o multiplicador de valuation. Se a SpaceX fosse só ela, qual seria a avaliação? "Maior satélite de internet + maior operadora de foguetes do mundo" — com um P/S de 15-20 vezes (com base na receita de US$ 15,4 bilhões em 2025, estimando US$ 230-300 bilhões). Mas, ao incorporar a xAI, avaliada em US$ 200 bilhões na última rodada, a SpaceX vira uma "empresa de infraestrutura de IA + satélites + foguetes + mídias sociais" — uma combinação disruptiva. Essa narrativa de disrupção faz o mercado atribuir um prêmio de "sobrevalor" (premium de narrativa).

Segundo, usar o fluxo de caixa do Starlink como garantia de crédito para a xAI. A avaliação da xAI é de US$ 200 bilhões, mas ela ainda perde US$ 60 milhões por ano. Ao fundi-la na SpaceX, o prejuízo de US$ 63 milhões de 2025 é parcialmente compensado pelo lucro operacional de US$ 4,4 bilhões do Starlink — fazendo a saúde financeira parecer muito melhor. É uma transferência de fluxo de caixa, uma espécie de "garantia de valor" embutida na fusão.

Terceiro, o controle. Se a xAI fosse só ela, Musk poderia ser diluído por investidores de risco. Agora, na SpaceX, com a Classe B de 10:1 de votos, Musk mantém o controle absoluto — seus funcionários iniciais da xAI viram ações Classe A, sem direito a voto, na estrutura da fusão.

Quarto, a fachada de transações relacionadas. A fusão de xAI e X é listada como "entre entidades sob controle comum" — ou seja, Musk faz uma reestruturação interna, evitando avaliações de fair value e possíveis questionamentos regulatórios.

Qual é a verdadeira essência da SpaceX? Uma empresa de foguetes? Ou uma plataforma de infraestrutura e controle de uma civilização

Hoje, a SpaceX é uma fusão de seis empresas:

  • Maior operadora de foguetes do mundo

    — Desde 2023, mais de 80% das cargas orbitais globais, com 650 lançamentos do Falcon, taxa de sucesso acima de 99%.

  • Maior operadora de satélites de internet

    — 9.600 satélites em órbita, 75% do total de satélites móveis, 10,3 milhões de assinantes pagos.

  • Um dos maiores operadores de capacidade de computação de IA

    — COLOSSUS + COLOSSUS II, cerca de 1 GW de capacidade, com clusters "coerentes" de IA. O primeiro foi construído em 122 dias, o segundo em 91 dias — enquanto um data center de 100 MW leva cerca de dois anos.

  • Uma das três maiores plataformas de mídia social

    — X + Grok, com 550 milhões de usuários ativos mensais, 350 milhões de posts diários, 117 milhões de usuários com recursos de IA ativados.

  • Futuro centro de dados espacial

    — Planeja lançar satélites de computação orbital a partir de 2028, com meta de 100 GW de capacidade anual, envolvendo milhares de lançamentos e milhões de toneladas de carga.

  • Próxima fase de colonização lunar

    — Planeja construir "lunar mass driver" (dispositivo de transporte de massa lunar), extração de energia lunar, fabricação na Lua, e uma cidade em Marte. Musk chama isso de caminho para uma civilização "Kardashev Tipo II".

Se olharmos essas quatro camadas, percebemos uma coisa assustadora — o que Musk está fazendo não é uma simples empresa, mas uma espécie de "East India Company" do século 17-19:

  • Possui sua própria frota militar (marinha + exército, com 240 mil soldados); a SpaceX tem seus próprios foguetes e satélites de defesa.
  • Tem sua própria moeda e sistema monetário; as ações SPCX são uma espécie de "nova moeda" do universo de IA, que pode comprar tudo — Cursor, contratos de computação, aquisições futuras.
  • Controla seus próprios territórios e colônias (Órbita baixa, Lua, Marte).
  • Tem seu próprio sistema legal e de tarifas; a Starbase, no Texas, funciona como uma "cidade-empresa" autônoma; seus ativos no espaço e na Lua estão em uma zona de "soberania ambígua" — Musk já exerce uma espécie de "soberania semi-legal".

Essa é a visão final: a SpaceX não será só uma empresa, mas a primeira "entidade semi-soberana" da história humana. Não é totalmente uma organização comercial (pois substitui funções de Estado), nem uma nação (pois tem acionistas, lucros, mas não responsabilidades sociais). É uma "infraestrutura + capacidade de soberania" privatizada.

E a questão do título — "a maior lucratividade da SpaceX é ela mesma" — tem três níveis de resposta:

Primeiro, (curto prazo, 2025-2027): o negócio mais lucrativo é o Starlink. Com receita recorrente de assinatura, ele responde por quase todo o lucro operacional de 2025.

Segundo, (médio prazo, 2027-2032): o maior negócio será a venda de capacidade de computação de IA (orbital + terrestre). A receita de US$ 15 bilhões de hoje pode saltar para US$ 300-500 bilhões por ano, com o crescimento de Macrohard, xAI, e o mercado orbital de IA.

Terceiro, (longo prazo, 2032+): o negócio mais lucrativo será a cobrança por infraestrutura — você paga pelo uso do Starlink, pelo serviço de Macrohard, pelo lançamento de satélites, pelo transporte lunar, pelo turismo espacial. A SpaceX será uma espécie de "pedágio" de toda a comunicação e transporte entre Terra, Lua e Marte.

E os foguetes? Desde o começo, eles são só a "porta de entrada" — a prova de conceito de que Musk consegue transformar infraestrutura que ninguém quer tocar em negócio. Quando a IPO foi anunciada, eles viraram a "porta de entrada"; na estreia na Nasdaq, essa porta virou um "passaporte VIP" para o futuro de uma civilização multiplanetária.

Na janela do vidro da Zombie Café, a luz laranja do sol bate na capa do prospecto. Alan pensa: de repente, entende por que os underwriters escolheram o código "SPCX" — e não outro:

S, de Space (espaço)
P, de Power (energia)
C, de Connectivity (conectividade)
X, de Musk, o símbolo do desconhecido — e talvez, um dia, do "Imperador" que todos terão que chamar.

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