Recentemente, algo chamou-me a atenção: a dívida pública dos EUA já ultrapassou os 35 biliões de dólares. Não é apenas um número abstrato, porque a cada americano corresponde cerca de 100 mil dólares de dívida. Ainda mais chocante é o facto de a dívida pública dos EUA representar mais de 120% do PIB do país. Por outras palavras, mesmo que a Ameryka parasse economicamente e todos trabalhassem durante um ano sem comer nem beber para pagar as dívidas, ainda assim não conseguiriam.



O que aconteceu aqui? O governo dos EUA limita-se a gastar dinheiro como se estivesse doido. Infraestruturas, protecção social, despesas militares — em todo o lado era preciso dinheiro. E quando a carteira não chegava, emprestavam a todo o mundo. Investidores globais, governos, corporações — todos passaram a ser credores da Ameryka. É como um filho rico da segunda geração que queima dinheiro sem qualquer noção.

Mas espera: os EUA são a maior economia do mundo. Têm um sistema financeiro forte, e o dólar é a moeda “dura” mundial. Como é que fazem isso? Imprimem dinheiro para pagar as dívidas. Baixam as taxas de juro, fazem flexibilização quantitativa — tudo para aliviar a pressão da dívida. Parece esperto, mas tem um preço. A longo prazo, pode causar inflação e desestabilizar toda a economia mundial.

É por isso que as obrigações do Tesouro dos EUA continuam a atrair investidores. Toda a gente considera que é um investimento relativamente seguro. Acreditam que a Ameryka nunca conseguirá deixar de pagar as suas dívidas. Mas, à medida que o endividamento aumenta, essa confiança começa a ser posta à prova. Se os investidores perderem a fé e começarem a vender a dívida pública dos EUA, haverá um problema.

E é aqui que entram a China. Como segundo maior detentor estrangeiro da dívida dos EUA, a China tem obrigações no valor de cerca de 771 mil milhões de dólares. Isso representa apenas cerca de 2% da dívida pública total dos EUA, mas no mercado financeiro internacional é um “peixe grande” que pode causar bastante confusão.

O que aconteceria se a China, de repente, vendesse tudo? A oferta de dívida dos EUA no mercado aumentaria de forma acentuada. O preço das obrigações cairia, as yields (rentabilidades) subiriam — os investidores procurariam retornos mais elevados. Seria uma má notícia para o governo dos EUA, porque os seus custos de endividamento aumentariam de repente. Ano após ano, teriam de pagar juros cada vez maiores.

E isto não se ficaria pelos Estados Unidos. Haveria uma reacção em cadeia em toda a economia mundial. As moedas de outros países começariam a oscilar, os investidores entrariam em pânico, e a ordem do comércio começaria a desmoronar. O mais perigoso seria para os próprios EUA — se os mercados financeiros deles caíssem, toda a economia seria afectada.

Mas espera: isto seria bom para a China? Nem por isso. A venda da dívida dos EUA dar-lhes-ia uma tonelada de dólares, mas traz consigo o risco de desvalorização do dólar. A China é o maior país do mundo em reservas de moeda e tem imensos activos americanos. Quando o dólar cair, eles também sentiriam isso de forma dolorosa. É por isso que faz mais sentido a China manter essa dívida nas suas mãos — é como ter uma “carta na manga” nas negociações.

Mas sabes que mais? Cada vez mais países começam a pensar de forma diferente. Em vez de se concentrarem em vender a dívida pública dos EUA, o mundo inteiro está lentamente a passar para a desdolarização. Segundo informações, já quase metade dos países do mundo iniciou este processo. As economias emergentes foram as primeiras a opor-se — viram como a Ameryka, ao imprimir dólares, na prática “colhe a recompensa” de outros países.

Sempre que a Fed aumenta as taxas de juro, o capital internacional foge de outros países de volta para os EUA. É daí que vêm as crises na América Latina, na Ásia do Sudeste; recentemente, na Argentina e na Turquia. Os Estados Unidos não só transferiram a sua pressão económica, como também passaram a apropriar-se da riqueza de outros países.

Por isso, agora toda a gente está descontente. A China promove a internacionalização do yuan, os países BRICS criam um novo sistema de liquidação financeira que contorna as tradicionais alianças bancárias. Até países tradicionalmente desenvolvidos começam a ter dúvidas em relação ao dólar.

Isto significa o fim da hegemonia do dólar? Ainda não. A posição do dólar na economia mundial está profundamente enraizada. Mas a tendência é clara — a desdolarização é o futuro. E a China desempenha um papel crucial neste processo. Como o maior país em desenvolvimento e representante das economias emergentes, cada movimento da China influencia a direcção da estrutura económica global.

Curiosamente, as pessoas comuns também o percebem. Vêem que a dívida pública dos EUA está a crescer sem controlo, que o sistema é injusto. Alguns brincam que a Ameryka está a transformar o mundo inteiro nos seus credores. Outros exprimem preocupações sobre se isto não acabará por os afectar pessoalmente.

Uma coisa é certa — na era da explosão de informação, temos de manter a racionalidade. A situação económica mundial é complexa, cheia de incerteza. Mas uma coisa é certa: a estrutura do sistema financeiro global está a mudar à nossa frente. Os tempos em que a dívida pública dos EUA podia ser ignorada já passaram.
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