Estratégia de Autonomia Chinesa: Quando a Procura Aumenta, as Alternativas Diminuem

Quando se trata do setor global de inteligência artificial, enfrentamos uma equação estranha: quanto maior a procura por poder de computação, menores as opções de fontes confiáveis. É exatamente isso que a China vive hoje — e a sua resposta está a redefinir o equilíbrio de poder na indústria.

A verdadeira pressão não está nas chips, mas no ambiente de software

Alguns podem pensar que a proibição de chips é a ameaça principal. Mas a realidade é muito mais profunda. O que realmente sufoca as empresas chinesas de IA não são os chips em si, mas um ambiente de software chamado CUDA.

Desde 2006, a NVIDIA construiu uma verdadeira império em torno da sua plataforma CUDA. Essa plataforma, que transforma o poder das GPUs em uma ferramenta de computação avançada, tornou-se a base para quase todos os modelos de IA modernos. Após duas décadas de evolução, mais de 4,5 milhões de desenvolvedores estão ligados ao CUDA, distribuídos por mais de 40 mil empresas globais.

Aqui está o problema: um desenvolvedor de IA não pode simplesmente abandonar o CUDA e substituí-lo por outra tecnologia. Cada linha de código, cada biblioteca, cada experiência acumulada ao longo dos anos — tudo está profundamente ligado a esse ambiente. Mudar isso exigiria reescrever coletivamente o conhecimento de milhares das mentes mais brilhantes do mundo. Quem pagará esse preço?

De algoritmos à autonomia: o caminho alternativo da China

Mas, ao invés de enfrentar a proibição de forma direta, as empresas chinesas escolheram um caminho completamente diferente. De final de 2024 a 2025, ocorreu uma mudança estratégica abrangente para modelos de especialistas mistos — uma técnica que divide um grande modelo em vários especialistas menores, ativando apenas o necessário para cada tarefa.

A DeepSeek lançou seu modelo V3 com 671 bilhões de parâmetros, mas só usa 37 bilhões durante a inferência. Resultado: custo de treinamento de apenas 5,576 milhões de dólares — contra 78 milhões do GPT-4 da OpenAI. A diferença não é uma questão técnica comum, mas um salto qualitativo na eficiência.

Essa melhora se refletiu diretamente nos preços. A interface de software da DeepSeek custa entre 0,028 e 0,28 dólares por milhão de tokens de entrada, contra 5 dólares do GPT-4. Essa diferença — de 25 a 75 vezes mais barato — deixou de ser uma vantagem de preço e virou uma arma estratégica.

Em apenas três semanas de fevereiro de 2026, o uso de modelos chineses na OpenRouter, maior plataforma de distribuição de interfaces de IA do mundo, cresceu 127%. A participação dos modelos chineses, que antes não passava de 2%, chegou a quase 60% após um ano — um crescimento de 421%.

Infraestrutura local amadurece: do inferência ao treinamento

Agora, a verdadeira transformação acontece. Os chips chineses locais passaram do estágio de “capacidade de inferência” para uma fase ainda mais importante: “capacidade de treinamento”.

Em Changsu, uma linha de produção local de 148 metros entrou em operação em 2025, de forma rápida — do conceito à produção em apenas 180 dias. Essa linha produz processadores Loongson 3C6000 e placas T100 AI da Taichu Yuanqi — chips 100% chineses, de fabricação e design nacionais.

O resultado: produção de um servidor completo a cada cinco minutos. Com um investimento de 1,1 bilhão de yuans, estima-se uma produção de 100 mil unidades por ano.

Mais importante: esses chips já suportam tarefas reais de treinamento de modelos gigantescos. A Zhipu AI e a Huawei lançaram juntas o modelo GLM-Image em janeiro de 2026 — o primeiro modelo avançado de geração de imagens totalmente treinado com chips chineses. Um mês depois, o gigante de telecomunicações China Telecom treinou seu modelo “Estrela” em hardware totalmente local.

Isso não é um avanço técnico comum — é uma mudança de paradigma. Treinar exige processamento de enormes volumes de dados, cálculos complexos e atualizações de parâmetros — requisitos que superam a inferência por uma margem de dez vezes.

A base dessa transformação são os chips Ascend da Huawei. Até o final de 2025, mais de 4 milhões de desenvolvedores estavam na plataforma Ascend, com 3 mil parceiros industriais. Foram treinados 43 modelos principais na indústria com Ascend, e mais de 200 modelos de código aberto foram adaptados.

Em março de 2026, a Huawei lançou sua nova tecnologia de computação SuperPoD fora do mercado chinês pela primeira vez. A potência do chip Ascend 910B atingiu o nível do A100 da NVIDIA. E, embora ainda haja uma lacuna, a mudança fundamental foi: de “inutilizável” para “eficientemente utilizável”.

Energia e o novo mundo: quando a energia se torna uma arma estratégica

Enquanto o foco está nos chips e algoritmos, algo mais silencioso, mas de impacto maior, está acontecendo: a disparidade no consumo de energia se amplia a uma velocidade impressionante.

No início de 2026, os EUA enfrentaram uma crise energética severa. A Virgínia suspendeu a aprovação de novos data centers, seguida pela Geórgia até 2027. A rede elétrica do leste do país enfrenta uma lacuna de 6 GW. Até 2033, a previsão é de uma escassez de energia de 175 GW — o suficiente para abastecer 130 milhões de lares.

O consumo de data centers nos EUA atingiu 183 TWh em 2024 — cerca de 4% do consumo nacional total. Espera-se que esse número dobre até 2030. Só o setor de IA pode consumir de 20 a 25% da eletricidade dos EUA até lá.

Os custos de energia no atacado nas regiões com maior concentração de data centers aumentaram 267% em cinco anos.

Na China, a situação é radicalmente diferente. O país produz 10,4 trilhões de kWh por ano — 2,5 vezes mais que os EUA (4,2 trilhões). E o mais importante: o consumo residencial na China representa apenas 15% do total, enquanto nos EUA chega a 36%. Isso significa uma enorme disponibilidade de energia industrial para investimentos em computação.

Os preços de energia industrial no oeste da China estão em torno de 0,03 dólares por kWh — um quarto ou quinto do custo na maioria das regiões de IA nos EUA (0,12-0,15 dólares).

A diferença não é uma margem — é uma mudança estrutural. Transferir operações de alta computação de uma região com escassez energética para uma com abundância relativa muda completamente as regras da economia.

Os tokens substituem produtos: como a China redefine as exportações

Enquanto os EUA enfrentam a crise energética, a IA chinesa avança silenciosamente para os mercados globais. Mas, desta vez, o que sai não é uma fábrica ou produto — são os “tokens”, unidades precisas que os modelos de IA processam.

Esses tokens são produzidos em fábricas de computação chinesas e enviados por redes globais para todo o mundo. Uma nova commodity digital — sem necessidade de transporte marítimo ou alfândega, apenas conexão à internet.

Dados de distribuição de usuários do DeepSeek contam a história: 30,7% na China, 13,6% na Índia, 6,9% na Indonésia, 4,3% nos EUA, 3,2% na França. Suporta 37 idiomas e se espalhou fortemente por mercados emergentes como o Brasil.

Mais de 26 mil empresas globais criaram contas, e 3.200 instituições lançaram versões corporativas. Até 2025, 58% das novas startups de IA escolheram DeepSeek como parte de sua infraestrutura tecnológica.

Na China, domina 89% do mercado. Nos países sob sanções, a participação varia entre 40% e 60%.

Uma lição histórica do Japão: construir o sistema, não apenas o produto

Há quarenta anos, o Japão enfrentou uma batalha semelhante. Em 1986, sob forte pressão dos EUA, o governo japonês assinou um acordo de semicondutores com os EUA — um tratado que limitou sua autonomia tecnológica.

Em 1988, o Japão controlava 51% do mercado mundial de semicondutores, enquanto os EUA tinham 36,8%. Seis das dez maiores empresas de semicondutores do mundo eram japonesas: NEC, Toshiba, Hitachi, Fujitsu, entre outras. A Intel perdeu 173 milhões de dólares naquele ano e quase quebrou.

Mas, após o acordo, tudo mudou. Os EUA usaram mecanismos de investigação abrangentes e, ao mesmo tempo, apoiaram Samsung e Hynix na Coreia para derrubar o mercado japonês com preços baixos. A participação do Japão em DRAM caiu de 80% para 10%.

Até 2017, a fatia do Japão no mercado de ICs encolheu para 7%. Empresas que antes dominavam saíram do mercado, foram adquiridas ou desapareceram com prejuízos contínuos.

A verdadeira razão do sangramento japonês não foi a deficiência técnica, mas uma decisão estratégica fatal: aceitar ser “o melhor produto” em um sistema global controlado por uma única potência, ao invés de construir um ecossistema independente.

Quando a maré virou, perceberam que não tinham nada além da própria linha de produção.

O caminho da China: o mesmo desafio, uma resposta completamente diferente

Hoje, a China enfrenta as mesmas pressões — e mais. Três rodadas de restrições de chips (2022, 2023, 2024), com aumento contínuo. As barreiras ao ambiente CUDA ainda são altas demais.

Mas a resposta é decisiva. Em vez de buscar o “melhor produto” em um sistema dominado pela NVIDIA, a China optou por construir um ecossistema independente.

Começou com melhorias radicais nos algoritmos. Depois, elevou sua infraestrutura local de capacidade de inferência para treinamento. Depois, acumulou 4 milhões de desenvolvedores na plataforma Ascend. E, por fim, distribuiu tokens globalmente para mercados emergentes e avançados.

Cada passo constrói uma verdadeira autonomia — algo que o Japão nunca conseguiu.

Em 27 de fevereiro de 2026, três empresas chinesas de fabricação de chips de IA divulgaram seus relatórios financeiros no mesmo dia. Kemo aumentou sua receita em 453% e atingiu lucros anuais pela primeira vez. Moitun cresceu 243%, mas teve prejuízo de 1 bilhão de dólares. Moxi cresceu 121%, com prejuízo de 800 milhões.

Metade fogo, metade água. O fogo é a fome insaciável do mercado. A água é o custo de construir o ecossistema.

Cada prejuízo é dinheiro real investido na corrida pela autonomia — em pesquisa e desenvolvimento, suporte de software, engenheiros resolvendo problemas de tradução um a um. Não é uma má gestão, mas uma taxa de independência que precisa ser paga.

Esses três relatórios refletem com fidelidade a verdadeira guerra pelo poder de computação — mais do que qualquer relatório industrial. Não é uma vitória inspiradora, mas uma batalha feroz travada na linha de frente, com sangue escorrendo.

Mas o formato da guerra mudou. Há oito anos, perguntávamos: “Podemos ficar?” Hoje, a verdadeira questão é: “Qual será o preço que pagaremos?”

E o mesmo preço é o progresso.

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