O metaverso: da ficção científica à realidade digital vivida

A visão futura dos mundos virtuais

Na última década, testemunhámos uma transformação radical na forma como concebemos os mundos digitais. O que outrora era considerado um sonho científico distante tornou-se agora o foco de grandes empresas e milhões de utilizadores em todo o mundo. O futuro centra-se na integração de diferentes tecnologias — realidade virtual, realidade aumentada e inteligência artificial — para criar ambientes digitais totalmente habitáveis e funcionais.

E o papel das blockchains e das criptomoedas é um elemento crucial nesta equação. Sem uma infraestrutura segura e confiável para transações econômicas dentro desses mundos, o metaverso não conseguirá alcançar todo o seu potencial como uma plataforma econômica e social integrada.

A evolução do metaverso ao longo das décadas: da ideia à aplicação

A ideia do metaverso não surgiu do nada. Foi o resultado acumulado de décadas de inovação tecnológica e de visões imaginativas.

As primeiras etapas da realidade virtual

Em 1838, um cientista chamado Charles Wheatstone apresentou um conceito revolucionário: a visão estereoscópica tridimensional usando um dispositivo simples. Esta inovação foi a base sobre a qual todas as tecnologias modernas de realidade virtual foram construídas. Quase um século depois, na década de 1930, um escritor de ficção científica chamado Stanley Weinbaum imaginou um mundo que as pessoas poderiam entrar através de óculos especiais, e escreveu um romance intitulado “Óculos de Pigmaleão” que descreve este conceito com uma precisão impressionante.

O ano de 1962 testemunhou o nascimento do primeiro dispositivo de realidade virtual verdadeiramente funcional. O cineasta Morton Heilig criou uma máquina chamada “Sensorama” que mergulhou os seus usuários numa experiência de simulação de condução de uma moto, utilizando movimento, aromas e imagens tridimensionais. Embora não tenha ido além da fase de protótipo, abriu horizontes para o que é possível.

Mudança qualitativa nos anos oitenta e noventa

Em 1984, dois pioneiros na área da realidade virtual — Jaron Lanier e Thomas Zimmerman — fundaram a VPL Research, que desenvolveu e vendeu os primeiros fones de ouvido de realidade virtual e luvas de dados. O começo foi rudimentar, mas promissor.

O que tornou o metaverso um conceito real foi a publicação do romance “Snow Crash” em 1992, escrito por Neal Stephenson. O romancista americano apresentou uma imagem detalhada de um mundo virtual interconectado para o qual as pessoas escapam usando avatares digitais. A palavra “metaverso” em si vem deste romance e agora se tornou parte do vocabulário técnico global.

A internet e os jogos abrem caminho

Em 1989, a World Wide Web foi desenvolvida por Tim Berners-Lee, e em 2003, a Linden Lab lançou a plataforma Second Life, que permitiu a primeira experiência em larga escala de um mundo virtual compartilhado. Jogos modernos como Roblox (2006) e jogos de ganho P2E como Axie Infinity, The Sandbox e Decentraland foram apenas uma evolução natural deste conceito.

Paralelamente, o Google lançou o serviço Street View em 2007, uma tecnologia que liga mapas digitais ao mundo real de forma fluida e interativa. A Pokémon GO também mostrou em 2016 como a realidade aumentada pode atrair milhões de usuários — o jogo foi descarregado mais de 500 milhões de vezes no seu primeiro ano.

O papel da blockchain e das criptomoedas: a infraestrutura da economia digital

Bitcoin e Ethereum: Mudança de Jogo

Em 2008-2009, surgiu a rede Bitcoin, que é a primeira verdadeira cadeia de blocos descentralizada. Não era apenas uma moeda digital, mas uma prova de que sistemas descentralizados confiáveis são possíveis. Depois veio o Ethereum em 2015, graças a Vitalik Buterin, que adicionou a capacidade de executar contratos inteligentes e aplicações descentralizadas.

Esta base tecnológica mudou tudo. Agora é possível:

  • Realizar transações seguras e transparentes sem intermediário central
  • Criar tokens não fungíveis (NFT) que representam ativos únicos em mundos virtuais
  • Construir aplicações descentralizadas completas geridas pela comunidade e não por uma única empresa

Tokens não fungíveis e propriedade digital

Em 2014, Kevin McCoy e Anil Dash criaram o primeiro NFT real chamado “Quantum”, que é uma imagem poligonal na blockchain Namecoin. Naquela época, nem todos perceberam as possibilidades ocultas. Mais tarde, os NFTs tornaram-se a base essencial para expressar propriedade no metaverso — um mundo virtual, roupas para avatares, obras de arte digitais.

Organizações descentralizadas e governança

Em 2016, testemunhamos o surgimento da primeira organização descentralizada independente real chamada “The DAO” na rede Ethereum. A ideia era revolucionária: um grupo de pessoas que possui ações e vota em conjunto sobre como gerenciar os fundos sem um intermediário humano. Este princípio tornou-se o modelo ideal de como desenvolver o metaverso de uma forma descentralizada e democrática.

A aceleração moderna: da compreensão ao investimento maciço

2021: O momento decisivo

Quando a plataforma Facebook mudou o seu nome para Meta em 2021, isso foi um sinal psicológico forte: o metaverso deixou de ser uma fantasia e tornou-se uma prioridade estratégica para grandes empresas. A Meta investiu bilhões de dólares no desenvolvimento de óculos de realidade virtual e aumentada, na criação de conteúdo específico para o metaverso e na compra de tecnologias relacionadas.

2022 e além: parcerias industriais

A movimentação não se limitou às empresas de tecnologia de consumo. As empresas Siemens e NVIDIA anunciaram uma parceria estratégica para construir o “metaverso industrial”, onde a inteligência artificial e os gráficos acelerados se cruzam com processos de manufatura reais. Isso reflete uma visão mais ampla: o metaverso não é apenas um jogo, mas uma ferramenta econômica abrangente.

Infraestrutura Integrada: O que está além das moedas digitais

O metaverso real requer mais do que apenas criptomoedas ou NFTs. Ele precisa de:

As tecnologias fundamentais:

  • Internet de alta velocidade e baixa latência para suportar milhões de usuários simultâneos
  • Motores gráficos 3D poderosos para criar ambientes realistas
  • Inteligência artificial e processamento de linguagem natural para avatares e interações inteligentes

Desafios de segurança e governança:

  • Proteção da privacidade em mundos de vigilância constante
  • Controle de comportamentos indesejados (fraude, abuso)
  • Estabelecer normas de governança justas para todos
  • Garantia da propriedade efetiva dos usuários sobre os seus ativos digitais

O metaverso precisa realmente da blockchain?

Aqui reside a questão fundamental: as cadeias de blocos e as criptomoedas são necessárias para o metaverso?

A resposta não é simples. Sim, é possível construir mundos virtuais sem blockchain ( como servidores centrais tradicionais ). Mas sem blockchain:

  • Os usuários não possuirão seus ativos na realidade — a empresa os possui.
  • Todas as transações estarão sujeitas a supervisão central.
  • Será difícil transferir ativos entre diferentes mundos de metaverso

Com a blockchain, tudo isso se torna possível. Os ativos podem ser realmente possuídos, transferidos e trocados livremente, e as operações são, por natureza, transparentes e seguras.

Previsões Futuras

A maioria dos analistas reconhece que o metaverso que conhecemos hoje ainda está em suas fases iniciais. Tecnologias emergentes como a conectividade 5G, a computação de borda e a realidade estendida irão acelerar significativamente este desenvolvimento.

O que esperamos:

  • Expansão gradual do uso econômico efetivo
  • Aumentar os investimentos em infraestruturas
  • Aparecimento de padrões globais unificados
  • Integração gradual do metaverso nas nossas vidas diárias — trabalho, educação, entretenimento

O metaverso não é apenas uma moda ou um hype passageiro. É uma extensão lógica da evolução da internet e da tecnologia, e a integração das blockchains e das criptomoedas irá determinar, em última análise, se este novo mundo será aberto e seguro, ou restrito e centralizado.

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