Zcash: Um Hedge Contra o BTC?

2025-12-30 10:25:09
intermediário
Blockchain
ZEC se descolou do Bitcoin durante o período de consolidação. Segundo a Messari, a reprecificação de mercado do Zcash é explicada por suas funcionalidades de privacidade, alterações regulatórias e o avanço da institucionalização do Bitcoin.

Confira a seguir um trecho de @ MessariCrypto em “The Crypto Theses 2026”. O relatório completo está disponível em:

https://messari.io/report/the-crypto-theses-2026

Entre os criptoativos além de BTC e ETH, o ZEC foi o que mais teve sua percepção monetária transformada em 2025. Durante anos, o ZEC permaneceu fora da hierarquia das criptomoedas, visto como uma moeda de privacidade de nicho e não como um ativo monetário. Porém, com o aumento das preocupações sobre vigilância e a institucionalização do Bitcoin, a privacidade voltou ao centro das discussões como uma propriedade essencial do dinheiro, e não apenas uma preferência ideológica restrita.

O Bitcoin demonstrou que o dinheiro digital não soberano pode operar globalmente, mas não conseguiu preservar a privacidade típica do dinheiro físico. Todas as transações ficam expostas em um livro-razão público e transparente, acessível a qualquer pessoa com um block explorer. É uma ironia amarga: uma ferramenta criada para subverter o Estado acabou, inadvertidamente, construindo um panóptico financeiro.

O Zcash alia a política monetária do Bitcoin às características de privacidade do dinheiro físico, utilizando criptografia de conhecimento zero. Nenhum outro ativo digital oferece as garantias de privacidade testadas e determinísticas do mais recente pool protegido do Zcash, tornando-o uma forma valiosa de dinheiro privado, difícil de ser replicada. Em nossa avaliação, o mercado reprecificou o ZEC em relação ao BTC para refletir seu status aspiracional de criptoativo privado, posicionando o ZEC como proteção diante do avanço do Estado de vigilância e da institucionalização do Bitcoin.

No acumulado do ano, o ZEC disparou 666% frente ao BTC, elevando seu valor de mercado para US$7,0 bilhões e, por um breve período, ultrapassando o XMR como a moeda de privacidade de maior valor de mercado. Essa força relativa sinaliza que o ZEC está sendo precificado como uma alternativa viável de criptoativo privado, ao lado do XMR.

Privacidade no Bitcoin

É muito improvável que o Bitcoin adote uma arquitetura de pool protegido, o que torna infundada a expectativa de que venha a incorporar a proposta de valor do Zcash. O Bitcoin é reconhecido por sua cultura conservadora, que prioriza a ossificação para reduzir vetores de ataque e preservar a integridade monetária. Inserir privacidade no protocolo exigiria alterações profundas na arquitetura central do Bitcoin, trazendo o risco de bugs inflacionários que poderiam comprometer sua integridade. O Zcash assume esse risco porque a privacidade é seu principal valor.

Implementar criptografia de conhecimento zero na camada base também comprometeria a escalabilidade do blockchain, pois exigiria o uso de nullificadores e notas com hash para evitar gastos duplos, o que eleva preocupações de longo prazo com o “inchaço do estado”. Nullificadores criam uma “lista” apenas de acréscimo, que cresce sem limites, tornando a operação de um nó cada vez mais exigente em recursos. Exigir que os nós armazenem um conjunto massivo e crescente de nullificadores prejudica a descentralização do Bitcoin, pois aumenta os requisitos para manter um nó ao longo do tempo.

Como já mencionado, sem um soft fork que permita verificação ZK, como o OP_CAT, nenhuma L2 do Bitcoin pode herdar a segurança do Bitcoin e, ao mesmo tempo, oferecer privacidade ao nível do Zcash. As alternativas são: introduzir intermediários confiáveis (federações), aceitar longos e interativos atrasos em saques (modelo BitVM), ou transferir execução e segurança para outro sistema (sovereign rollups). Até que isso mude, não existe caminho para unir a segurança do Bitcoin à privacidade do Zcash, o que faz do ZEC um ativo privado valioso.

Proteção Contra CBDCs

A urgência por privacidade cresce com a chegada das Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs). Metade dos países do mundo já investiga ou implementou uma CBDC. As CBDCs são programáveis: os emissores podem rastrear cada transação e também controlar como, quando e onde os fundos são gastos. Os recursos podem ser limitados a estabelecimentos aprovados ou regiões específicas.

Apesar de parecer distópico, a instrumentalização do sistema bancário é um fato:

  • Nigéria (2020): Durante os protestos #EndSARS contra a violência policial, o Banco Central da Nigéria congelou contas de líderes do movimento e grupos feministas, obrigando-os a recorrer a criptoativos para manter a mobilização.
  • Estados Unidos (2020-2025): Reguladores e grandes bancos retiraram serviços de setores lícitos, porém politicamente desfavorecidos, alegando “risco reputacional” e ideologia, em vez de segurança, em um padrão tão grave que a Casa Branca determinou uma revisão e o OCC documentou restrições sistemáticas a setores como petróleo, gás, armas, conteúdo adulto e cripto.
  • Canadá (2022): Durante os protestos do Freedom Convoy, o governo canadense utilizou a Emergencies Act para congelar contas bancárias e de criptoativos de manifestantes e pequenos doadores, sem decisão judicial. A Polícia Montada chegou a bloquear 34 endereços de carteiras cripto, obrigando exchanges reguladas a suspender transações. Isso evidenciou que democracias ocidentais estão dispostas a instrumentalizar o sistema financeiro contra dissidentes políticos.

Na era em que o dinheiro pode ser programado para controlar o usuário, o ZEC representa uma opção clara de exclusão. Contudo, o Zcash não serve apenas para escapar das CBDCs; sua proteção se mostra cada vez mais necessária também para o próprio Bitcoin.

Proteção Contra a Captura do Bitcoin

Como defendem líderes como Naval Ravikant e Balaji Srinivasan, o Zcash é uma apólice de seguro para preservar a visão de liberdade financeira do Bitcoin.

O Bitcoin vem sendo rapidamente concentrado em entidades centralizadas. Entre exchanges centralizadas (3,0 milhões de BTC), ETFs (1,3 milhão de BTC) e empresas de capital aberto (829.192 BTC), cerca de 5,1 milhões de BTC (24% da oferta total) estão sob custódia de terceiros.

Esse nível de concentração significa que 24% de todo o BTC está vulnerável à apreensão regulatória, repetindo condições que permitiram a confiscação de ouro nos EUA em 1933. A Executive Order 6102 obrigou cidadãos americanos a entregar todo ouro acima de US$100 ao Federal Reserve, recebendo moeda fiduciária à cotação oficial de US$20,67 por onça troy. Isso foi feito por bloqueios bancários, não por força física.

Para o Bitcoin, o mecanismo seria o mesmo. Os reguladores não precisam das chaves privadas para confiscar 24% da oferta; basta terem autoridade legal sobre os custodiantes. O governo pode emitir ordem a empresas como BlackRock e Coinbase, que seriam obrigadas a congelar e transferir os BTC sob sua custódia. Assim, quase um quarto da oferta de BTC poderia ser nacionalizado sem sequer alterar o código. Embora seja um cenário extremo, não pode ser descartado.

A transparência do blockchain também significa que a autocustódia isolada já não é defesa suficiente. Qualquer BTC retirado de exchange ou corretora com KYC pode ser rastreado e apreendido, pois o “rastro” leva o governo ao destino final da moeda.

Detentores de BTC podem converter para Zcash e romper a cadeia de custódia, “isolando” seu patrimônio da vigilância. Após ingressar no pool protegido, o endereço de destino se torna um “buraco negro” criptográfico para observadores. Reguladores podem rastrear a saída dos fundos da rede Bitcoin, mas não conseguem identificar o destino final, tornando os ativos invisíveis para o Estado. Embora o saque para bancos nacionais ainda seja um gargalo, os ativos em si são resistentes à censura e difíceis de rastrear. O grau de anonimato depende totalmente da segurança operacional: reutilizar endereços ou adquirir fundos via exchanges com KYC cria um vínculo permanente antes do shield.

O Caminho para o PMF

Sempre houve demanda por dinheiro privado; o Zcash apenas não conseguia atender o usuário onde ele estava. Por anos, o protocolo sofreu com requisitos altos de memória, tempos longos de comprovação e configurações de desktop complexas, tornando transações protegidas lentas e pouco convidativas. Recentes avanços de infraestrutura eliminaram essas barreiras, abrindo caminho para a adoção.

O upgrade Sapling reduziu o consumo de memória em 97% (para ~40 MB) e o tempo de comprovação em 81% (para ~7 segundos), viabilizando transações protegidas em dispositivos móveis.

Apesar do Sapling ter resolvido a questão da velocidade, as trusted setups ainda eram um ponto sensível para a comunidade de privacidade. Com o Halo 2, o Orchard eliminou a necessidade de trusted setup no Zcash, tornando-o totalmente trustless. Também introduziu os Unified Addresses, que reúnem pools transparentes e protegidos em um único destino, dispensando a escolha manual de tipo de endereço pelo usuário.

Essas melhorias de arquitetura culminaram no lançamento do Zashi, carteira mobile criada pela Electric Coin Company em março de 2024. Com a abstração dos Unified Addresses, o Zashi reduziu o atrito das transações protegidas a poucos toques, tornando a privacidade o padrão da experiência do usuário (UX).

Com a barreira de UX superada, a distribuição ainda era um desafio. Usuários ainda dependiam de CEXs para depositar e sacar ZEC em suas carteiras. A integração dos NEAR Intents eliminou essa necessidade. Com NEAR Intents, usuários do Zashi podem trocar ativos suportados (ex: BTC, ETH) diretamente por ZEC protegido, sem depender de CEX. Também é possível pagar qualquer endereço em 20 blockchains diferentes, em qualquer ativo suportado, financiando a transação com ZEC protegido.

Essas iniciativas permitiram ao Zcash superar antigas barreiras e acessar liquidez global, atendendo ao mercado exatamente onde ele está.

Perspectivas Futuras

Desde 2019, a correlação móvel entre ZEC e BTC está em queda consistente, de picos de 0,90 para mínimas recentes de 0,24. O beta móvel do ZEC frente ao BTC atingiu máximas históricas, ou seja, o ZEC amplifica os movimentos do BTC mesmo com a correlação em baixa. Essa divergência mostra que o mercado começa a atribuir um prêmio único às garantias de privacidade do Zcash. Para o futuro, esperamos que o desempenho do ZEC seja guiado por esse “prêmio de privacidade”, ou seja, o valor que o mercado confere ao anonimato financeiro em tempos de vigilância crescente e instrumentalização do sistema financeiro global.

Consideramos extremamente improvável que o ZEC supere o BTC. A oferta transparente e a auditabilidade incontestável do Bitcoin o consolidaram como o criptoativo mais sólido. O Zcash, por sua vez, continuará com os compromissos inerentes a uma moeda de privacidade. Ao criptografar o livro-razão para garantir privacidade, sacrifica auditabilidade e introduz o risco teórico de bugs inflacionários – inflação não detectada no pool protegido – que o livro-razão transparente do Bitcoin elimina.

Ainda assim, o ZEC pode conquistar seu próprio espaço, independente do BTC. Os dois ativos não disputam a mesma solução, mas atendem a demandas diferentes no universo das criptomoedas. O BTC é o criptoativo sólido, otimizado para transparência e segurança; o ZEC é o criptoativo privado, otimizado para confidencialidade e privacidade financeira. Nesse sentido, o sucesso do ZEC não depende de substituir o BTC, mas de complementá-lo ao oferecer atributos que o Bitcoin optou por não adotar.

Para uma análise detalhada do Zcash, acesse o relatório da Messari: https://messari.io/report/understanding-zcash-a-comprehensive-overview.

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