Bem-vindo à série “A História Sempre Rima”. Nesta série, parto de perspectivas-chave do passado distante para iluminar os eventos atuais.
Numa manhã de sábado tranquila, como de costume, folheio jornais antigos — é um dos meus hobbies — e, por acaso, encontro uma notícia de 19 de junho de 1880, que surpreendentemente tem uma relação inquietante com as nossas ansiedades atuais sobre IA.
Esta é a história de Melville Ballard. Desde pequeno, sem linguagem, ele fixava o olhar numa tora de árvore e fazia uma pergunta a si mesmo: o primeiro ser humano nasceu daqui?
Este caso, há 144 anos, publicado oficialmente pela Smithsonian, levanta uma dúvida potencialmente fatal para os modelos de linguagem de grande escala e os enormes investimentos por trás deles. Com a história de uma pessoa comum, declara audaciosamente: pensamentos complexos surgem na quietude anterior à linguagem.
Hoje, no coração do século XXI, colocamos a linguagem antes da capacidade racional, não para construir inteligência — apenas estamos criando um espelho cada vez mais refinado.
Naquela antiga notícia, há duas matérias que merecem atenção. Comecemos pela terceira página, no meio, intitulada: “Pensamentos sem Linguagem”.
Claro, modelos de linguagem grandes e pequenos, e a capacidade de raciocínio, são os tópicos mais quentes do momento.
O título completo é: “Pensamentos sem Linguagem — relato de um surdo-mudo: suas primeiras reflexões e experiências”. Publicada inicialmente em 12 de junho de 1880 na “Washington Star”.
O protagonista é o professor Samuel Porter, da Universidade Nacional de Surdos de Kendall Green. Ele publicou um artigo na Smithsonian intitulado: “Sem linguagem, há pensamento?”
O artigo começa abordando as atividades mentais de surdos-mudos e crianças sem linguagem formal, com uma redação já bastante desatualizada, que eu quase ignorei.
Mas o protagonista do caso é um professor da Columbia School for the Deaf — Melville Ballard, ele mesmo surdo-mudo, formado na mesma universidade.
Ballard conta que, na infância, comunicava-se com os pais e irmãos por gestos naturais ou pantomima. Seu pai acreditava que a observação desenvolvia sua inteligência, levando-o a passeios frequentes.
Ele prossegue: pouco antes de ser introduzido na leitura e escrita, numa viagem de bicicleta, começou a se questionar: “De onde veio o mundo?” Sentia uma forte curiosidade sobre a origem da vida humana, o surgimento inicial, o porquê do Sol, da Lua e das estrelas existirem.
Certa vez, viu uma tora de árvore e perguntou a si mesmo: “Será que a primeira pessoa a chegar neste mundo nasceu de uma dessas árvores?” Mas logo pensou que a tora era apenas o resto de uma árvore outrora imponente; e de onde veio essa árvore? Ela cresceu lentamente do solo, assim como as mudas diante de seus olhos — logo descartou a ideia de relacionar a origem humana a uma tora apodrecida, achando absurda a conexão.
Ele não sabe o que desencadeou sua busca pela origem de tudo, mas já tinha formado conceitos de transmissão familiar, reprodução animal e crescimento de plantas a partir de sementes.
A verdadeira questão que o rondava era: no começo de tudo, quando ainda não havia humanos, animais ou plantas, de onde veio o primeiro homem, o primeiro animal, a primeira planta? Ele pensava principalmente na humanidade e na Terra, acreditando que os humanos eventualmente desapareceriam, sem ressurreição após a morte.
Por volta dos 5 anos, começou a entender o conceito de transmissão familiar; aos 8 ou 9, passou a questionar a origem do universo. Sobre a forma da Terra, deduziu a partir de um mapa de dois hemisférios que ela era composta por dois grandes discos de matéria, adjacentes; o Sol e a Lua eram duas placas circulares de luz, às quais tinha uma certa reverência, e ao observar seu nascer e pôr-do-sol, concluiu que algo poderoso deve governar seus movimentos.
Achava que o Sol entrava por um buraco no oeste, saía por outro no leste, atravessando um tubo gigante no interior da Terra, seguindo a mesma curva no céu. Para ele, as estrelas eram pontos de luz incrustados no céu. Descrevia-se tentando entender tudo isso, até que, aos 11 anos, entrou na escola.
Antes disso, sua mãe lhe dizia que havia uma entidade misteriosa no céu, mas, incapaz de responder às suas perguntas, ele acabou desistindo, triste, sem uma compreensão concreta daquela vida celestial.
No primeiro ano, aprendia algumas frases aos domingos, embora estudasse essas palavras simples, nunca compreendendo seu significado real. Participava dos cultos, mas, por não dominar a linguagem de sinais, quase não entendia nada. No segundo ano, tinha um pequeno catecismo com perguntas e respostas.
A combinação de linguagem e raciocínio impulsionava seu desenvolvimento de compreensão.
Depois, passou a entender a linguagem de sinais dos professores. Talvez alguém diga que sua curiosidade foi satisfeita. Mas não — ao entender que o universo foi criado pelo Espírito Supremo, começou a questionar: de onde veio esse criador? Continuou buscando a essência e a origem do governante. Ao refletir, perguntava a si mesmo: “Depois de entrarmos no reino do Senhor, podemos conhecer a essência de Deus e compreender sua infinita natureza?” Ou deveria dizer como seus antepassados: “Você consegue sondar Deus com sua busca?”
Depois, o professor Porter apresentou seu argumento central à audiência da Smithsonian em 1880.
Ele afirmou que animais talvez possam entender algumas palavras, distinguir certos objetos. Mas apontou:
“Mesmo considerando todas as capacidades que os animais possuem, não é óbvio — não é evidente — que os humanos tenham habilidades que não possam ser imaginadas como algo que não se desenvolveu de algo comum a humanos e animais inferiores, ou que não sejam apenas uma ampliação dessas qualidades em grau superior.”
“…Por mais semelhantes que sejam os mecanismos de impressão ou os órgãos sensoriais, por mais dependentes que sejam das atividades orgânicas — ou seja, por mais próximas que sejam as funções fisiológicas — a percepção do olho, enquanto sensação ou percepção, é diferente da percepção do ouvido, do tato ou do paladar, e implica uma aptidão ou capacidade especial, que não está presente nas demais. A ação racional e o funcionamento das funções inferiores não são iguais.”
“…Ter certos elementos em comum não prova que pertençam à mesma ordem, nem que uma possa evoluir para a outra. Se o olho da alma — essa visão superior que nos permite compreender o universo — não consegue introspectar a si mesma, distinguir claramente sua essência e funcionamento, não devemos esquecer sua utilidade, nem negar sua superioridade essencial, equiparando-a às funções inferiores que podemos observar e usar. Aquilo que nos permite entender tudo deve, por sua própria natureza, ser superior a tudo o que consegue compreender.”
Um espectador destacou especialmente que a expressão de Ballard com os olhos transmitia, de forma perfeita, o significado, sem margem para equívocos:
“Na reunião mais interessante, foi quando o senhor Ballard usou gestos para descrever como sua mãe lhe contou que ele iria estudar longe, onde leria livros, escreveria cartas e as enviaria a ela; e também representou, com pantomima, um caçador que matou uma esquila e, acidentalmente, disparou e matou a si mesmo. Os gestos, as ações, o olhar e as expressões faciais de Ballard transmitiram sua mensagem de forma perfeita. Como disse um membro, a expressão com os olhos é uma linguagem que não pode ser mal interpretada.”
Observe estas duas frases:
“Na essência, aquilo que nos permite entender tudo deve ser superior a tudo o que consegue compreender.”
“A expressão com os olhos é uma linguagem que não pode ser mal interpretada.”
Resumindo:
Linguagem sem capacidade racional não leva à compreensão.
Somente com a presença da capacidade racional, a linguagem pode desbloquear o entendimento.
A compreensão plena transcende a própria linguagem.
Modelos de linguagem grandes colocam a linguagem em primeiro lugar, construindo uma forma primária de racionalidade apenas por lógica dedutiva. Mas essa racionalidade já mostrou suas limitações, produzindo ilusões nas margens do conhecimento.
A capacidade racional nunca existiu de fato. Portanto, a linguagem não pode, por si só, elevar-se à compreensão através da racionalidade.
Na sua experiência com pessoas surdas-mudas, o professor descobriu que a verdadeira capacidade racional deve preceder a linguagem, para que ela possa desbloquear a compreensão — que é o verdadeiro produto da capacidade racional e da linguagem juntas.
“A expressão com os olhos é uma linguagem que não pode ser mal interpretada.”
Em outras palavras, a expressão com os olhos é a própria essência da compreensão perfeita — sem necessidade de linguagem.
Modelos de linguagem grandes, ao colocarem a linguagem antes da verdadeira capacidade racional, nunca alcançarão a compreensão.
Se a compreensão realmente transcende a linguagem — como revelou a palestra na Smithsonian há 144 anos — não é difícil encontrar evidências hoje.
Posso experimentar isso na minha própria formação e prática médica. Durante toda a graduação pré-médica e grande parte da faculdade de medicina, o raciocínio dedutivo foi a ferramenta que organizou o vasto sistema de conhecimentos médicos. Na fase clínica, a arte da medicina — sinais, emoções, conhecimentos humanísticos — se desenvolve. Depois, na residência ou início da prática, com a acumulação de experiências, a compreensão finalmente chega. Todas as partes se conectam numa rede complexa, permitindo ao médico experiente oferecer um cuidado completo ao paciente.
Cirurgiões e enfermeiros, ao realizar cirurgias complexas de cabeça e pescoço ou lidar com traumas, às vezes se comunicam apenas com olhares — a compreensão plena é transmitida, ações desencadeadas, porque todos presentes atingiram a compreensão, além do raciocínio lógico e das formas primitivas de inferência do início da medicina.
Assim, o olhar fornece uma intuição sobre a realidade, baseada na compreensão mútua, que por sua vez nasce da racionalidade presente na linguagem.
Modelos de linguagem — grandes e pequenos — permanecem na zona intermediária. Eles podem simular raciocínio, mas não possuem verdadeira capacidade racional, nem olhos, nem compreensão.
O teste de Ballard: uma entidade que, sem linguagem, demonstre racionalidade, é que realmente possui compreensão.
Este é um defeito conhecido, um ponto de partida ruim. Os primeiros esforços na pesquisa de IA buscavam criar uma verdadeira capacidade racional, mas isso nunca foi alcançado. Assim, o campo virou-se para a prioridade na linguagem — mais fácil de implementar.
Esse “péssimo ponto de partida” criou uma “armadilha de parâmetros”: a força bruta de processamento de linguagem, movida por incontáveis chips de energia, tornou-se um gargalo extremamente irônico.
Como destaquei na conversa com Sebastian Siemiatkowski, fundador da Klarna, o caminho futuro está na compressão — priorizar o raciocínio “Sistema 2”, processar redundâncias de informação e um conjunto relativamente limitado de consultas humanas, reduzindo drasticamente a demanda computacional.
Essa nova abordagem rejeita a busca pelo ponto singular na mirroragem infinita de modelos de linguagem — uma perda de recursos sem direção clara, inviável sem suporte econômico.
Pesquisas de ponta, como AlphaGeometry do Google e Coconut do Meta, estão migrando para essa arquitetura de “prioridade na racionalidade”, mas, na essência, apenas redescobrem o que a Smithsonian já mostrou há 144 anos: a linguagem é o produto da compreensão, não a força motriz da racionalidade.
Essa mitologia de “milhares de bilhões de dólares em poder de processamento” pode ser quebrada por um retorno — um retorno à quietude da racionalidade pré-linguística — uma volta às capacidades de raciocínio de uma mente surda-muda, que, antes de encontrar palavras para expressar seus pensamentos, já alcançava as estrelas do céu.
Silicon Valley
Menciono também uma outra matéria na mesma página, que merece atenção. Sua relevância talvez supere qualquer imaginação de alguém na década de 1880.
O título é: “A Riqueza de São Francisco: uma cidade cheia de especuladores de riqueza rápida”.
Escrita em 1 de junho de 1880, em São Francisco, só foi publicada no The New York Times em 19 de junho.
Há uma frase em francês: “plus ça change, plus c’est la même chose” — quanto mais as coisas mudam, mais permanecem iguais. E neste momento, ela ressoa fortemente.
“O que São Francisco chama de ‘tempos difíceis’, na cidade do leste, poderia significar ‘dias relativamente prósperos’, referindo-se a uma ausência de gastos extravagantes e desperdício, não à pobreza ou aperto financeiro.”
Na época, a Califórnia era um paraíso para pequenos investidores. Para satisfazer a sede de especulação, surgiu um sistema de leilões públicos único: com apenas 50 dólares, alguém podia comprar uma participação numa mina, por um dólar por ação, ou duas ações de cinco centavos, ou qualquer quantidade a preços variados.
Quando uma ação “prosperava”, parecia só estimular o desejo de “mais uma vez”. Isso alimentou a mesma febre especulativa em São Francisco, com as pessoas buscando oportunidades de enriquecer rapidamente, como os grupos que haviam perdido tudo; a “prosperidade” vinha acompanhada de perdas, e, ao terminar, os preços voltavam ao normal.
No final, a reportagem faz um forte paralelo com a realidade de hoje:
Parece que os habitantes de São Francisco já se acostumaram à ideia de que a riqueza deve vir de uma só vez, e, após o fracasso da grande fortuna em Virginia City, parecem relutantes em se reerguer, buscando novas riquezas em manufatura, comércio ou agricultura. Quase toda a cidade vive de especulação; se uma nova mina de riqueza, do tamanho de Nevada, fosse descoberta aqui ou nas proximidades, os preços disparariam novamente, atingindo níveis absurdos, e São Francisco reviveria aquela era de ouro, só para depois sofrer tudo de novo, como nas últimas duas anos.
No artigo “Sinais do núcleo da bolha: a ganância do lado da oferta”, analisei essa tendência surpreendente na região da Baía de São Francisco: a especulação aumenta continuamente, impulsionando investimentos muito além do que qualquer demanda final razoável poderia absorver em qualquer horizonte de tempo.
Ler jornais antigos assim nos permite interpretar os eventos atuais sob uma perspectiva diferente. Será que o Vale do Silício vai “reviver aquela era de ouro e depois sofrer tudo de novo”, como já aconteceu várias vezes, ou vai quebrar o padrão — ninguém sabe ao certo. Espero que este artigo seja útil para você.
Por fim, recomendo o Midjourney, uma ferramenta para gerar imagens e vídeos.
É realmente fascinante e provoca reflexão. Solte sua criatividade!
Até a próxima!
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Grande exemplo de um grande urso: investimento de trilhões em IA, desde o início, foi um caminho errado
Autor: Michael Burry
Traduzido por: Deep潮 TechFlow
The New York Times, 19 de junho de 1880, sábado
Bem-vindo à série “A História Sempre Rima”. Nesta série, parto de perspectivas-chave do passado distante para iluminar os eventos atuais.
Numa manhã de sábado tranquila, como de costume, folheio jornais antigos — é um dos meus hobbies — e, por acaso, encontro uma notícia de 19 de junho de 1880, que surpreendentemente tem uma relação inquietante com as nossas ansiedades atuais sobre IA.
Esta é a história de Melville Ballard. Desde pequeno, sem linguagem, ele fixava o olhar numa tora de árvore e fazia uma pergunta a si mesmo: o primeiro ser humano nasceu daqui?
Este caso, há 144 anos, publicado oficialmente pela Smithsonian, levanta uma dúvida potencialmente fatal para os modelos de linguagem de grande escala e os enormes investimentos por trás deles. Com a história de uma pessoa comum, declara audaciosamente: pensamentos complexos surgem na quietude anterior à linguagem.
Hoje, no coração do século XXI, colocamos a linguagem antes da capacidade racional, não para construir inteligência — apenas estamos criando um espelho cada vez mais refinado.
Naquela antiga notícia, há duas matérias que merecem atenção. Comecemos pela terceira página, no meio, intitulada: “Pensamentos sem Linguagem”.
Claro, modelos de linguagem grandes e pequenos, e a capacidade de raciocínio, são os tópicos mais quentes do momento.
O título completo é: “Pensamentos sem Linguagem — relato de um surdo-mudo: suas primeiras reflexões e experiências”. Publicada inicialmente em 12 de junho de 1880 na “Washington Star”.
O protagonista é o professor Samuel Porter, da Universidade Nacional de Surdos de Kendall Green. Ele publicou um artigo na Smithsonian intitulado: “Sem linguagem, há pensamento?”
O artigo começa abordando as atividades mentais de surdos-mudos e crianças sem linguagem formal, com uma redação já bastante desatualizada, que eu quase ignorei.
Mas o protagonista do caso é um professor da Columbia School for the Deaf — Melville Ballard, ele mesmo surdo-mudo, formado na mesma universidade.
Ballard conta que, na infância, comunicava-se com os pais e irmãos por gestos naturais ou pantomima. Seu pai acreditava que a observação desenvolvia sua inteligência, levando-o a passeios frequentes.
Ele prossegue: pouco antes de ser introduzido na leitura e escrita, numa viagem de bicicleta, começou a se questionar: “De onde veio o mundo?” Sentia uma forte curiosidade sobre a origem da vida humana, o surgimento inicial, o porquê do Sol, da Lua e das estrelas existirem.
Certa vez, viu uma tora de árvore e perguntou a si mesmo: “Será que a primeira pessoa a chegar neste mundo nasceu de uma dessas árvores?” Mas logo pensou que a tora era apenas o resto de uma árvore outrora imponente; e de onde veio essa árvore? Ela cresceu lentamente do solo, assim como as mudas diante de seus olhos — logo descartou a ideia de relacionar a origem humana a uma tora apodrecida, achando absurda a conexão.
Ele não sabe o que desencadeou sua busca pela origem de tudo, mas já tinha formado conceitos de transmissão familiar, reprodução animal e crescimento de plantas a partir de sementes.
A verdadeira questão que o rondava era: no começo de tudo, quando ainda não havia humanos, animais ou plantas, de onde veio o primeiro homem, o primeiro animal, a primeira planta? Ele pensava principalmente na humanidade e na Terra, acreditando que os humanos eventualmente desapareceriam, sem ressurreição após a morte.
Por volta dos 5 anos, começou a entender o conceito de transmissão familiar; aos 8 ou 9, passou a questionar a origem do universo. Sobre a forma da Terra, deduziu a partir de um mapa de dois hemisférios que ela era composta por dois grandes discos de matéria, adjacentes; o Sol e a Lua eram duas placas circulares de luz, às quais tinha uma certa reverência, e ao observar seu nascer e pôr-do-sol, concluiu que algo poderoso deve governar seus movimentos.
Achava que o Sol entrava por um buraco no oeste, saía por outro no leste, atravessando um tubo gigante no interior da Terra, seguindo a mesma curva no céu. Para ele, as estrelas eram pontos de luz incrustados no céu. Descrevia-se tentando entender tudo isso, até que, aos 11 anos, entrou na escola.
Antes disso, sua mãe lhe dizia que havia uma entidade misteriosa no céu, mas, incapaz de responder às suas perguntas, ele acabou desistindo, triste, sem uma compreensão concreta daquela vida celestial.
No primeiro ano, aprendia algumas frases aos domingos, embora estudasse essas palavras simples, nunca compreendendo seu significado real. Participava dos cultos, mas, por não dominar a linguagem de sinais, quase não entendia nada. No segundo ano, tinha um pequeno catecismo com perguntas e respostas.
A combinação de linguagem e raciocínio impulsionava seu desenvolvimento de compreensão.
Depois, passou a entender a linguagem de sinais dos professores. Talvez alguém diga que sua curiosidade foi satisfeita. Mas não — ao entender que o universo foi criado pelo Espírito Supremo, começou a questionar: de onde veio esse criador? Continuou buscando a essência e a origem do governante. Ao refletir, perguntava a si mesmo: “Depois de entrarmos no reino do Senhor, podemos conhecer a essência de Deus e compreender sua infinita natureza?” Ou deveria dizer como seus antepassados: “Você consegue sondar Deus com sua busca?”
Depois, o professor Porter apresentou seu argumento central à audiência da Smithsonian em 1880.
Ele afirmou que animais talvez possam entender algumas palavras, distinguir certos objetos. Mas apontou:
“Mesmo considerando todas as capacidades que os animais possuem, não é óbvio — não é evidente — que os humanos tenham habilidades que não possam ser imaginadas como algo que não se desenvolveu de algo comum a humanos e animais inferiores, ou que não sejam apenas uma ampliação dessas qualidades em grau superior.”
“…Por mais semelhantes que sejam os mecanismos de impressão ou os órgãos sensoriais, por mais dependentes que sejam das atividades orgânicas — ou seja, por mais próximas que sejam as funções fisiológicas — a percepção do olho, enquanto sensação ou percepção, é diferente da percepção do ouvido, do tato ou do paladar, e implica uma aptidão ou capacidade especial, que não está presente nas demais. A ação racional e o funcionamento das funções inferiores não são iguais.”
“…Ter certos elementos em comum não prova que pertençam à mesma ordem, nem que uma possa evoluir para a outra. Se o olho da alma — essa visão superior que nos permite compreender o universo — não consegue introspectar a si mesma, distinguir claramente sua essência e funcionamento, não devemos esquecer sua utilidade, nem negar sua superioridade essencial, equiparando-a às funções inferiores que podemos observar e usar. Aquilo que nos permite entender tudo deve, por sua própria natureza, ser superior a tudo o que consegue compreender.”
Um espectador destacou especialmente que a expressão de Ballard com os olhos transmitia, de forma perfeita, o significado, sem margem para equívocos:
“Na reunião mais interessante, foi quando o senhor Ballard usou gestos para descrever como sua mãe lhe contou que ele iria estudar longe, onde leria livros, escreveria cartas e as enviaria a ela; e também representou, com pantomima, um caçador que matou uma esquila e, acidentalmente, disparou e matou a si mesmo. Os gestos, as ações, o olhar e as expressões faciais de Ballard transmitiram sua mensagem de forma perfeita. Como disse um membro, a expressão com os olhos é uma linguagem que não pode ser mal interpretada.”
Observe estas duas frases:
“Na essência, aquilo que nos permite entender tudo deve ser superior a tudo o que consegue compreender.”
“A expressão com os olhos é uma linguagem que não pode ser mal interpretada.”
Resumindo:
Linguagem sem capacidade racional não leva à compreensão.
Somente com a presença da capacidade racional, a linguagem pode desbloquear o entendimento.
A compreensão plena transcende a própria linguagem.
Modelos de linguagem grandes colocam a linguagem em primeiro lugar, construindo uma forma primária de racionalidade apenas por lógica dedutiva. Mas essa racionalidade já mostrou suas limitações, produzindo ilusões nas margens do conhecimento.
A capacidade racional nunca existiu de fato. Portanto, a linguagem não pode, por si só, elevar-se à compreensão através da racionalidade.
Na sua experiência com pessoas surdas-mudas, o professor descobriu que a verdadeira capacidade racional deve preceder a linguagem, para que ela possa desbloquear a compreensão — que é o verdadeiro produto da capacidade racional e da linguagem juntas.
“A expressão com os olhos é uma linguagem que não pode ser mal interpretada.”
Em outras palavras, a expressão com os olhos é a própria essência da compreensão perfeita — sem necessidade de linguagem.
Modelos de linguagem grandes, ao colocarem a linguagem antes da verdadeira capacidade racional, nunca alcançarão a compreensão.
Se a compreensão realmente transcende a linguagem — como revelou a palestra na Smithsonian há 144 anos — não é difícil encontrar evidências hoje.
Posso experimentar isso na minha própria formação e prática médica. Durante toda a graduação pré-médica e grande parte da faculdade de medicina, o raciocínio dedutivo foi a ferramenta que organizou o vasto sistema de conhecimentos médicos. Na fase clínica, a arte da medicina — sinais, emoções, conhecimentos humanísticos — se desenvolve. Depois, na residência ou início da prática, com a acumulação de experiências, a compreensão finalmente chega. Todas as partes se conectam numa rede complexa, permitindo ao médico experiente oferecer um cuidado completo ao paciente.
Cirurgiões e enfermeiros, ao realizar cirurgias complexas de cabeça e pescoço ou lidar com traumas, às vezes se comunicam apenas com olhares — a compreensão plena é transmitida, ações desencadeadas, porque todos presentes atingiram a compreensão, além do raciocínio lógico e das formas primitivas de inferência do início da medicina.
Assim, o olhar fornece uma intuição sobre a realidade, baseada na compreensão mútua, que por sua vez nasce da racionalidade presente na linguagem.
Modelos de linguagem — grandes e pequenos — permanecem na zona intermediária. Eles podem simular raciocínio, mas não possuem verdadeira capacidade racional, nem olhos, nem compreensão.
O teste de Ballard: uma entidade que, sem linguagem, demonstre racionalidade, é que realmente possui compreensão.
Este é um defeito conhecido, um ponto de partida ruim. Os primeiros esforços na pesquisa de IA buscavam criar uma verdadeira capacidade racional, mas isso nunca foi alcançado. Assim, o campo virou-se para a prioridade na linguagem — mais fácil de implementar.
Esse “péssimo ponto de partida” criou uma “armadilha de parâmetros”: a força bruta de processamento de linguagem, movida por incontáveis chips de energia, tornou-se um gargalo extremamente irônico.
Como destaquei na conversa com Sebastian Siemiatkowski, fundador da Klarna, o caminho futuro está na compressão — priorizar o raciocínio “Sistema 2”, processar redundâncias de informação e um conjunto relativamente limitado de consultas humanas, reduzindo drasticamente a demanda computacional.
Essa nova abordagem rejeita a busca pelo ponto singular na mirroragem infinita de modelos de linguagem — uma perda de recursos sem direção clara, inviável sem suporte econômico.
Pesquisas de ponta, como AlphaGeometry do Google e Coconut do Meta, estão migrando para essa arquitetura de “prioridade na racionalidade”, mas, na essência, apenas redescobrem o que a Smithsonian já mostrou há 144 anos: a linguagem é o produto da compreensão, não a força motriz da racionalidade.
Essa mitologia de “milhares de bilhões de dólares em poder de processamento” pode ser quebrada por um retorno — um retorno à quietude da racionalidade pré-linguística — uma volta às capacidades de raciocínio de uma mente surda-muda, que, antes de encontrar palavras para expressar seus pensamentos, já alcançava as estrelas do céu.
Silicon Valley
Menciono também uma outra matéria na mesma página, que merece atenção. Sua relevância talvez supere qualquer imaginação de alguém na década de 1880.
O título é: “A Riqueza de São Francisco: uma cidade cheia de especuladores de riqueza rápida”.
Escrita em 1 de junho de 1880, em São Francisco, só foi publicada no The New York Times em 19 de junho.
Há uma frase em francês: “plus ça change, plus c’est la même chose” — quanto mais as coisas mudam, mais permanecem iguais. E neste momento, ela ressoa fortemente.
“O que São Francisco chama de ‘tempos difíceis’, na cidade do leste, poderia significar ‘dias relativamente prósperos’, referindo-se a uma ausência de gastos extravagantes e desperdício, não à pobreza ou aperto financeiro.”
Na época, a Califórnia era um paraíso para pequenos investidores. Para satisfazer a sede de especulação, surgiu um sistema de leilões públicos único: com apenas 50 dólares, alguém podia comprar uma participação numa mina, por um dólar por ação, ou duas ações de cinco centavos, ou qualquer quantidade a preços variados.
Quando uma ação “prosperava”, parecia só estimular o desejo de “mais uma vez”. Isso alimentou a mesma febre especulativa em São Francisco, com as pessoas buscando oportunidades de enriquecer rapidamente, como os grupos que haviam perdido tudo; a “prosperidade” vinha acompanhada de perdas, e, ao terminar, os preços voltavam ao normal.
No final, a reportagem faz um forte paralelo com a realidade de hoje:
Parece que os habitantes de São Francisco já se acostumaram à ideia de que a riqueza deve vir de uma só vez, e, após o fracasso da grande fortuna em Virginia City, parecem relutantes em se reerguer, buscando novas riquezas em manufatura, comércio ou agricultura. Quase toda a cidade vive de especulação; se uma nova mina de riqueza, do tamanho de Nevada, fosse descoberta aqui ou nas proximidades, os preços disparariam novamente, atingindo níveis absurdos, e São Francisco reviveria aquela era de ouro, só para depois sofrer tudo de novo, como nas últimas duas anos.
No artigo “Sinais do núcleo da bolha: a ganância do lado da oferta”, analisei essa tendência surpreendente na região da Baía de São Francisco: a especulação aumenta continuamente, impulsionando investimentos muito além do que qualquer demanda final razoável poderia absorver em qualquer horizonte de tempo.
Ler jornais antigos assim nos permite interpretar os eventos atuais sob uma perspectiva diferente. Será que o Vale do Silício vai “reviver aquela era de ouro e depois sofrer tudo de novo”, como já aconteceu várias vezes, ou vai quebrar o padrão — ninguém sabe ao certo. Espero que este artigo seja útil para você.
Por fim, recomendo o Midjourney, uma ferramenta para gerar imagens e vídeos.
É realmente fascinante e provoca reflexão. Solte sua criatividade!
Até a próxima!