Tether的"Euroclear时刻":quando as stablecoins deixam de ser estáveis, o fim do mito da neutralidade



Um aviso de 182 milhões de dólares está a remodelar a confiança global no dólar digital.

27 de dezembro de 2024, a Tether congelou cinco carteiras na blockchain Tron, totalizando cerca de 182 milhões de dólares em USDT, numa ação que, como uma pedra lançada num lago calmo, criou ondas que ultrapassaram em muito o círculo interno do mundo das criptomoedas. Isto não foi uma operação comum de aplicação da lei contra lavagem de dinheiro — a sua escala, o alvo sensível e o timing delicado fizeram com que analistas rapidamente qualificassem este momento como o "Euroclear" da história das stablecoins: quando uma infraestrutura originalmente vista como um canal financeiro neutro começa a colaborar com agendas geopolíticas ao congelar ativos soberanos, ela deixa de ser apenas uma ferramenta técnica e passa a ser uma linha de frente na luta pelo poder.

Dilema na Venezuela: como as stablecoins se tornaram "a base do país"

Para entender o significado profundo desta tempestade, é preciso voltar ao país mais dependente de stablecoins: a Venezuela.

Segundo uma investigação do The Wall Street Journal, diante das sanções financeiras cada vez mais severas dos EUA, a estatal petrolífera PdVSA começou, em 2020, a exigir que os clientes pagassem em USDT para evitar o sistema bancário dolarizado bloqueado. Até o início de 2024, a empresa chegou a obrigar os clientes a depositar USDT como garantia de transação. O economista local Asdrúbal Oliveros revelou num podcast que quase 80% da receita petrolífera venezuelana já é recebida em stablecoins como USDT.

Não se trata apenas de uma mudança na forma de pagamento, mas de uma reestruturação de todo o fluxo de caixa do país. Quando os canais tradicionais de finanças são cortados, a Tether torna-se a "linha de vida digital" que conecta a Venezuela ao mercado energético global. Mas essa linha de vida tem uma fraqueza fatal — ela não é uma blockchain verdadeiramente sem autoridade, mas sim uma emissão altamente centralizada de stablecoins.

Mais irónico ainda, embora o governo venezuelano tenha arrecadado enormes receitas de petróleo em USDT, a falta de canais regulados e de gestão profissional faz com que grande parte dessa riqueza fique "presa" na blockchain, sem entrar na economia real. Oliveros aponta que, devido à dependência de carteiras pessoais, à ausência de processos internos de conformidade e à reconciliação periódica, algumas chaves de recuperação podem estar perdidas na confusão de gestão. Um país soberano, incapaz de converter seus ativos criptográficos em liquidez utilizável, vê sua taxa de câmbio oficial disparar descontroladamente.

Para o cidadão comum, USDT é a única proteção contra a hiperinflação. Paolo Ardoino, CEO da Tether, já afirmou que o peso venezuelano perdeu 99,8% do valor em relação ao dólar nos últimos dez anos. Com a moeda em colapso, o dólar digital penetrou nas veias do cotidiano — um idoso de 71 anos paga a taxa do condomínio em USDT, barbeiros, jardineiros e mercearias aceitam essa "dólar não oficial". Dados indicam que, até o final de 2024, as criptomoedas representam cerca de 10% dos pagamentos de mercearias na Venezuela.

O paradoxo do "duplo uso": linha de vida ou brecha para sanções?

Este é o conflito mais profundo das stablecoins. Ari Redbord, chefe de políticas globais da TRM Labs, resume com precisão essa realidade de "duplo uso": "Elas podem ser tanto uma linha de vida para civis quanto uma ferramenta de evasão sob pressão de sanções."

Para o povo venezuelano, USDT é uma escolha espontânea após o colapso do sistema bancário; para o regime de Maduro, é uma ferramenta técnica para contornar o bloqueio financeiro internacional. Quando esses dois usos se cruzam na mesma infraestrutura, a precisão do golpe sancionador torna-se extremamente difícil — congelar um endereço "ilegal" pode acabar prejudicando centenas de famílias "legítimas".

A Tether claramente optou por colaborar com as autoridades. Segundo dados recentes, a Tether já auxiliou mais de 255 agências de aplicação da lei em 55 jurisdições, congelando mais de 2,7 bilhões de dólares em USDT relacionados a atividades criminosas. Em setembro de 2024, a Tether, em parceria com TRON e TRM Labs, criou o grupo de combate a crimes financeiros T3 (T3 FCU), que no seu primeiro ano já congelou mais de 300 milhões de dólares em ativos. Este grupo recebeu elogios do FATF (Grupo de Ação Financeira contra o Branqueamento de Dinheiro), sendo considerado uma "recurso valioso para as autoridades globais".

Em julho de 2025, a Tether avançou ainda mais, investindo estrategicamente na empresa de análise blockchain Crystal Intelligence, adquirindo acesso direto às suas ferramentas de monitoramento de risco, detecção de fraudes e inteligência regulatória. Essa ação foi interpretada como um sinal claro ao mercado global: misuse USDT, and law enforcement will find you (abuse do USDT, e as autoridades irão encontrá-lo).

Fantasma do Euroclear: quando a neutralidade vira história

O que realmente preocupa os investidores internacionais é a comparação com o Euroclear.

Euroclear é uma instituição de custódia de valores mobiliários sediada em Bruxelas, teoricamente neutra. No entanto, após o conflito Rússia-Ucrânia, ela colaborou com a União Europeia ao congelar centenas de bilhões de euros em ativos do Banco Central russo, gerando preocupações generalizadas entre investidores soberanos sobre a politização da infraestrutura financeira europeia. Agora, a Tether parece seguir o mesmo caminho.

O analista de Bitcoin Dominic Frisby, na apresentação de um novo produto na Bolsa de Londres, foi direto: "Isso lembra quando se discutia a confiscação oficial dos ativos russos sob custódia do Euroclear, e os investidores soberanos internacionais ficavam inseguros quanto aos ativos denominados em euros. Agora, o mesmo pânico se espalha pelo capital cripto."

A principal diferença é que a UE hesitou na "última milha" ao confiscar ativos russos, preocupada em prejudicar a atratividade global dos ativos denominados em euros; enquanto a Tether, como empresa privada, agiu com mais rapidez. Quando Bruxelas ainda calculava os custos geopolíticos, a sede da Tether em El Salvador já tinha colaborado com o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA na sua congelamento.

Essa diferença envia um sinal frio ao mercado global: colocar dinheiro em stablecoins como USDT pode ser mais arriscado do que mantê-lo em ativos oficiais — pelo menos as instituições oficiais têm espaço para negociações diplomáticas, enquanto empresas privadas só precisam obedecer às ordens de uma jurisdição.

Ainda mais impactante, o CEO da Tether, Paolo Ardoino, declarou publicamente: "Somos a única stablecoin que trabalha regularmente com o Departamento de Justiça dos EUA, incluindo o FBI e a Polícia Federal." Essa postura de cooperação regulatória ativa contrasta fortemente com a imagem tradicional de uma "banco offshore" no mundo cripto.

A ameaça de sobrevivência? Um ponto de virada na narrativa das stablecoins

Para a Tether, isso pode representar uma ameaça à sua própria sobrevivência.

No passado, o sucesso da Tether no Sul Global baseava-se na narrativa de "sem permissão" e "antissabotagem" — quando a moeda nacional entra em colapso, com controles de capital rígidos e bancos desonestos, a USDT oferece uma via técnica para exposição ao dólar. Essa "sistema de moeda alternativa" permitiu que ela conquistasse mercados em países como Argentina, Turquia e Irã, sob pressão de sanções ou inflação.

Porém, o "Euroclear do momento venezuelano" revelou a fragilidade dessa narrativa: basta que o emissor queira, e ele pode colaborar com o poder para congelar qualquer endereço. Na blockchain Tron, a Tether, como contratante, possui o poder absoluto de congelar. Para atores soberanos ou entidades que precisam evitar sanções, USDT deixa de ser uma opção confiável.

Dados de mercado já mostram mudanças sutis. Uma prévia do relatório de crimes financeiros de 2026 da TRM Labs indica que, em 2025, o total de atividades ilegais em criptomoedas atingiu 158 bilhões de dólares, um aumento de 147% em relação aos 64 bilhões de 2024. Destes, 84% eram stablecoins. Embora isso reflita mais uma melhora na fiscalização do que um aumento real do crime, o volume de negociações de USDT na DeFi está sendo ultrapassado pelo USDC, que é mais transparente e regulado, atraindo investidores institucionais.

O impacto na nova administração da Venezuela também é relevante. O governo de Trump já anunciou que continuará vendendo petróleo venezuelano bloqueado "por tempo indeterminado", com os fundos sob controle dos EUA, "beneficiando o povo venezuelano". Essa estratégia de "custódia" se conecta às ações de congelamento da Tether, sinalizando que o caminho de países soberanos usando criptoativos para contornar sanções está sendo bloqueado.

Futuro: transparência e fragmentação em paralelo

A próxima prova de reserva da Tether, prevista para o final de janeiro ou início de fevereiro de 2025, será um ponto de atenção. Os investidores irão observar se a composição das reservas mudou com o aumento do congelamento de ativos ou se há uma pressão de resgates em grande escala.

Uma tendência mais profunda é que o mercado global de stablecoins possa se fragmentar:

1. Stablecoins reguladas (como USDC, PYUSD) se tornarão padrão institucional nos países desenvolvidos, totalmente integradas na regulamentação;

2. Stablecoins offshore (como USDT) continuarão a expandir-se em mercados emergentes, mas o mito da neutralidade já foi destruído, e os usuários terão que assumir riscos geopolíticos;

3. Stablecoins descentralizadas (como DAI, USDe) podem ganhar espaço por sua resistência à censura, mas enfrentam incertezas regulatórias;

4. Dólares digitais soberanos (como o dólar digital e o euro digital) acelerarão sua implementação, como alternativas às stablecoins privadas.

Para os venezuelanos, a realidade é dura: a linha de vida financeira que eles dependem pode ser cortada a qualquer momento pelo "pecado original" do governo. Como afirmou Adam Zarazinski, CEO da Inca Digital: "O uso de criptomoedas na Venezuela continuará a crescer, pois é uma forma de autoajuda diante do colapso econômico. Mas a mesma má gestão também oferece espaço para evasão de sanções. Se a governança não melhorar de forma confiável, esse cenário não mudará."

Conclusão: redefinindo os limites do poder

A ação de congelamento de 182 milhões de dólares da Tether marca uma influência do "Doctrine Donroe" (estratégia geoeconômica de Trump) que saiu do jogo geopolítico e penetrou no núcleo do mercado financeiro global. As stablecoins deixaram de ser apenas uma inovação tecnológica e passaram a ser uma ferramenta de competição entre grandes potências.

Para investidores internacionais, o ideal de "código é lei" foi substituído pela realidade de "conformidade é sobrevivência". Quando a Tether inclui o FBI em sua cooperação, quando o congelamento de endereços se torna rotina, e quando empresas privadas como a de El Salvador podem agir mais rápido do que instituições oficiais em Bruxelas, o capital global precisa reavaliar: o chamado "dólar digital" é uma extensão do dólar ou uma nova e mais invasiva forma de poder?

A resposta talvez esteja na próxima carteira congelada.

Este é um artigo de análise aprofundada, recomenda-se:

• Acompanhar - Monitorar continuamente a regulamentação de stablecoins e a interseção com a geopolítica

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