Gestão de ativos de 25,8 bilhões de francos suíços na private bank de Genebra, Banque Syz, com um século de história, foi abalada após a diretoria rejeitar uma proposta de integração de ativos criptográficos. O filho do fundador, Marc Syz, e seu parceiro de negócios, Richard Byworth, deixaram a empresa para fundar uma nova companhia focada em Bitcoin. A Bloomberg relata que a faísca para essa ruptura familiar foi um projeto de Bitcoin que representa menos de 1% do AUM total do banco.
(Antecedentes: Indústria bancária suíça entra na era do Bitcoin)
(Complemento: Presidente do Banco Central da Suíça rejeita novamente incluir Bitcoin nas reservas)
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Um banco suíço de private banking com 25,8 bilhões de francos suíços foi palco de uma disputa por uma proposta de integração de 3.500 Bitcoins — aproximadamente 0,9% do AUM do banco, com base no valor atual. Para essa fatia, pai e filho se desentenderam, e executivos saíram. O que os dados mostram é: o problema nunca foi o Bitcoin em si.
Segundo a Bloomberg, tudo começou com uma proposta de Marc Syz: integrar a Future Holdings AG, uma gestora de ativos criptográficos, ao braço de ativos alternativos fundado por seu pai, Eric Syz, a Syz Capital. Sob a liderança de Marc, a Syz Capital acumulou cerca de 2 bilhões de francos suíços em AUM (aproximadamente 2,5 bilhões de dólares), com Marc detendo cerca de 20% das ações e seu parceiro Byworth cerca de 5%.
A proposta chegou a avançar, mas foi rejeitada pelo conselho por motivos de risco. Depois, o conselho pediu que Marc e Byworth renunciassem aos cargos de diretores da Future Holdings. Ambos optaram por sair da instituição toda. O COO Boris Chave também saiu, e a Syz Capital agora é liderada pelo CFO do grupo, Christoph Raninger.
Essa turbulência ocorreu num momento delicado: o outro filho de Eric, Nicolas Syz, assumiu como CEO do banco em fevereiro de 2026, enquanto a esposa de Eric, a designer de joias de alta-costura Suzanne Syz, também faz parte do conselho. A complexidade da governança familiar é comparável a uma votação em blockchain de protocolos de criptomoedas.
Para entender essa ruptura, é preciso olhar para um número: ao final de 2024, o AUM total do Banque Syz era de 25,8 bilhões de francos suíços, praticamente o mesmo de cinco anos antes.
A Bloomberg contextualiza como uma disputa entre gerações de “criptomoeda versus tradicional”, mas os dados revelam outro problema: uma boutique de private banking com volume de gestão estagnado, enfrentando dificuldades de crescimento após décadas de juros baixos. Quando a estratégia de crescimento agressivo foi rejeitada, o que permaneceu foi uma questão de visão: a saída de Marc não foi apenas uma disputa de ideias, mas uma rejeição à política do banco de evitar qualquer risco mensurável.
Eric Syz fundou o banco em 1996, com raízes na indústria têxtil do século XIX. Em 2020, ele reestruturou a empresa, vendendo a divisão de gestão de ativos de varejo Oyster, focando em clientes de alta renda. A estratégia tinha visão de futuro, mas os resultados ainda estão por vir.
Após sair, Marc e Byworth anunciaram seus planos. Segundo a Bloomberg, a Future Holdings já se fundiu com a H100 Group AB, uma empresa listada na Suécia, e levantou 28 milhões de francos suíços (cerca de 34,5 milhões de dólares). O próximo passo é uma parceria com a Stifel Financial Corp para listar a Future Holdings na Suécia e na Suíça, com o objetivo final de transferir a sede para a bolsa principal da Suíça — um mercado europeu de alta liquidez e relativamente amigável às criptomoedas.
Marc pretende acumular mais de 3.500 Bitcoins, tornando-se a maior empresa de Bitcoin treasury da Europa. Além disso, planeja criar uma gestora independente, concorrendo diretamente com a Syz Capital, focada em preservação de capital e estratégias alternativas de crescimento.
O modelo de negócio é inspirado na Strategy Inc. de Michael Saylor (antiga MicroStrategy).
A Bloomberg destaca que, após a eleição de Trump, surgiram muitas empresas de Bitcoin treasury, com avaliações que superavam o valor de mercado dos ativos criptográficos que possuíam. Mas, com a queda do preço do Bitcoin, várias dessas empresas listadas viraram abaixo do valor líquido de seus ativos.
Ou seja, Marc entrou na corrida em um momento de avaliação mais frágil. A proposta de valor dessas empresas é usar ações com prêmio de mercado para financiar a compra de Bitcoin, alavancando a exposição ao ativo. Essa estratégia funciona em mercados otimistas, mas, quando o prêmio desaparece, os investidores acabam com uma ferramenta mais cara e menos transparente do que simplesmente comprar Bitcoin.
3.500 Bitcoins, ao preço atual, valem cerca de 350 milhões de dólares. Para atingir esse objetivo, será necessário continuar a captação de recursos. E essa captação depende do mercado estar disposto a pagar um prêmio — o que, por sua vez, depende de um sentimento de mercado otimista. Uma cadeia de hipóteses que precisa se encaixar perfeitamente.
A conclusão fria é: a visão de Marc sobre private banking tradicional está correta. Uma boutique de gestão de ativos de cinco anos, sem crescimento, enfrenta desafios estruturais que não desaparecem com uma troca de CEO. A rejeição à integração de criptomoedas mantém o controle de risco, mas fecha uma janela de crescimento.
Por outro lado, a rota alternativa escolhida por Marc — uma empresa de Bitcoin treasury — também é cheia de incertezas. A bolha do Bitcoin treasury já deixou lições em vários casos. O título de “maior da Europa” só se concretizará se o preço do Bitcoin e a reavaliação do mercado por esses instrumentos se sustentarem.
O pai mantém um banco que não cresce, o filho aposta em um setor cujo valor está sendo reavaliado. A sucessão na indústria bancária suíça parece mais uma aposta em direções opostas do que uma transferência de legado clara.